
Há algo nos azulejos que guarda mais do que poeira e tempo: guardam passos. Os meus, inclusive. Caminho por aquele corredor como quem pisa dentro do próprio passado — cada ladrilho bege e preto parece murmurar uma versão mais jovem de mim, o menino que corria para conversar com a secretária, que às vezes matava aula, que estudava à noite porque o dia pertencia à roça e ao meu pai.
Três anos ali.
E agora retorno pela porta da frente, com um crachá de professor e um frio na barriga que não senti nem no primeiro dia de aula da vida. Filosofia. Eu, professor de filosofia na escola onde aprendi que o mundo era maior do que a enxada e o suor. O espírito humano tem dessas: ele brilha quando a gente menos espera — basta notar, basta viver.
Entro na reunião pedagógica e minha voz, tão conhecida por falar demais, se esconde. Fico tímido. Engraçado: quem diria que o “aluno que não calava a boca” precisaria reaprender a respirar diante dos colegas professores?
Recebo orientações, pego anotações, prometo a mim mesmo dar o meu melhor. Mas o que eu não imaginava é que aquela noite me quebraria por dentro — e que seria bom.
Estou na biblioteca. A mesa de madeira, o cheiro de livros gastos, e duas mulheres sentadas diante de mim: a vice-diretora e ela — minha professora de português e literatura. A mulher que me ensinou a amar o Brasil por meio das palavras, que me apresentou Drummond como quem apresenta um parente sensível, desses que entende antes de perguntar.
Estamos ali para elaborar um projeto pedagógico. Mas, de repente, o projeto somos nós. Eu olho para ela e sinto a vida fazer um círculo perfeito. A voz embarga antes de qualquer ideia. Agradeço. Agradeço porque não há verbo mais verdadeiro daquela noite. Nos olhos delas, vejo o carinho transformado em destino.
E então vem algo que me atravessa como uma epifania silenciosa:
— Saber que você, meu aluno, chegou a ser essa pessoa feliz e orgulhosa de si, é o que honra a nossa profissão.
Ouvir isso é como se alguém tocasse o centro do meu ser. Eu, que passei por aqueles corredores tentando descobrir quem poderia ser, volto agora como professor. E descubro que a educação é isso: uma continuidade de mãos que se reconhecem no tempo.
Saí dali com lágrimas — não de dor, mas de pertencimento.
Os azulejos da escola continuam os mesmos.
Eu, não.