Estou aqui.
Dia 23 de dezembro. O Natal já acena do calendário, mas a escola ainda respira — vazia, lenta, quase em suspensão. E eu permaneço.
Estou com dois estudantes que nunca foram meus alunos. E, ainda assim, por alguma razão que a filosofia não explica totalmente, estamos juntos.
Um deles é do 9º ano. Para espanto de todos — inclusive o meu — é da minha cidade. Estudou lá, conhece minhas ruas, meus caminhos, o chão que me formou antes mesmo da escola. O mundo, de repente, encolhe. A cidade natal aparece ali, sentada numa carteira escolar, com outro rosto, outro tempo. Há encontros que não pedem explicação, apenas reconhecimento.
O outro eu nunca tinha visto. Está em processo de reclassificação — essa palavra técnica, fria, que o Estado usa para dizer que alguém precisa pagar as aulas que perdeu. O conteúdo é literatura de cordel. Ele precisa elaborar um poema, pode escolher os temas. Mas o que aconteceu ali foi maior que a tarefa.
Em algum momento, algo acendeu.
Ele entendeu — não por definição, mas por experiência — que poema nasce de sentimento.
E então eu o provoquei:
“E se você escrevesse sobre o que está sentindo agora?”
Sobre o que está fazendo.
Sobre estar aqui.
Nasceu ali a ideia de um poema sobre atitude.
Não como conceito abstrato, mas como gesto presente: sentar, tentar, permanecer. Pensar nisso me devolveu uma certeza antiga — a literatura não serve para explicar o mundo, mas para torná-lo habitável. Olhe um pouco do que saiu:
“deixei minha casa,
pra fazer uma prova,
pra ser aprovado.
Terminei, saí suado.” E isso é só o começo.
O outro menino, o da minha cidade, me surpreende de um jeito diferente. Ele sabe. E sabe que sabe. Respostas rápidas, memória afiada, compreensão clara. Inteligente demais para passar despercebido — e, ainda assim, invisível. Talvez nunca tenham apostado nele. Talvez ele próprio tenha parado de apostar.
E então me vejo no papel que ninguém me ensinou, mas que reconheço como meu: animador de torcida.
Aquele que aponta a potência quando o outro só enxerga cansaço.
Aquele que diz “vai” quando o mundo só disse “não sei”.
Para os meus — e até para os que nunca foram meus — eu nunca deixarei de ser isso:
voz de ânimo,
voz de força,
voz de carinho.
Amigo e professor.
Talvez seja exatamente isso que eu nasci para fazer.
É fim de ano.
E cá estou eu, sendo para eles aquilo que, tantas vezes, não foram para mim.
E penso, em silêncio, que talvez o verdadeiro conteúdo da escola não esteja no currículo, mas nesses encontros improváveis, às vésperas do Natal, quando ensinar é apenas um modo delicado de dizer: eu acredito em você.
