O Peso do Estribo: Planejando o trimestre, mas será que querem voar?

A luz da tela de meu chromebook é a única testemunha do meu conflito. O estou olhando para o plano de curso do Estado, calculando os meus encontros por data, afinal tenho duas turmas para cada ano do ensino médio. Para o primeiro ano: a lógica de Aristóteles, a linguagem e como ela acontece e se forma, chegaremos até as falácias – temas caríssimos em nossa sociedade contemporânea; o segundo, Teoria do Estado, a natureza da política, pensei até em abordar necropolítica, essa famigerada guerra travada nas redes sociais nossas ágoras modernas, sobre palavras tão curtas que não explicam muito bem o que cada pessoa é, a saber, a esquerda e a direita na política – e dá-lhe revolução francesa! Cobe ao terceiro a estética, a natureza do belo – imagine tentar fazer nascer nos estudantes do ensino médio, que o capitalismo já roubou, pois a única preocupação que eles têm nesse primeiro momento, e arrumar um emprego, uma fonte de renda! Deixa eu repetir estudantes que estão caminhando ou pelo menos já tendo 18 anos, preocupados desde já me arrumar um emprego e uma fonte de renda. Lógico que isso não é uma preocupação van, muito pelo contrário, o trabalho é uma dimensão do ser humano, todavia são jovens demais para apenas focarem isso neste momento. Acrescento que para além do capitalismo a ansiedade os robô também.

No papel, é lindo. No meu espírito, é um peso. Lembro de Paulo aos Romanos: o pedagogo como o estribo do cavalo. Sou eu ali, me esticando, sendo o calço firme para que meus estudantes, muitas vezes ‘estragados’ por uma realidade que não lhes oferece nada além de lamaçal político e carência, consigam montar no conhecimento e cavalgar. É estranho mas sinto um misto de ânimo, ansiedade produtiva, alegria, entusiasmo, “queria começar hoje” com “você estava difícil em curtir neles as ideias da Grécia antiga, de ética e de moral, ou mesmo da metafísica e a filosofia da mente, quem dirá explicar a natureza do Belo”. Talvez eu esteja só cansado também, afinal são muitos documentos para analisar estudar ponderar para então terminar no meu guia de ensino e aprendizagem. Mas a vozinha tá ali na minha cabeça.

É exaustivo ser estribo. Pois o cavalo está em movimento e eu tenho que servir de apoio senão meu estudante cai.É preciso ser duro para aguentar o tranco, o estado, as demandas, aquilo que eunsoun obrigado por lei assegurar E obrigado por minhas leis a manter, e resiliente para não quebrar quando eles se recusam a subir, eu aqui preciso então me esticar para alcançar. Planejei a aula de Lógica pensando na busca pela verdade, mas a ‘preguiça’ deles já me cansa por antecipação. Será que vão dar a mínima? Entre o Rap do Hungria e o Leviatã, eu sigo sendo o apoio. O estribo não corre a prova, mas sem ele, ninguém monta.Mas então, olho novamente para o Guia de Aprendizagem e percebo: se eu ainda me estico, é porque acredito que o músculo da alma deles ainda pode contrair.

A esperança não é um sentimento doce; aqui, ela é uma teimosia lógica. Se a filosofia é o parto das ideias, eu aceito as dores desse trabalho. Pois sei que, em algum momento entre uma aula sobre falácias e uma batida de rap, um deles vai calçar o pé com força no meu esforço, ganhar impulso e enxergar, nem que seja por um breve intervalo, um mundo que o capitalismo ainda não conseguiu comprar.No final das contas, o estribo só faz sentido porque o horizonte é vasto. E enquanto houver estrada, eu estarei ali: firme, baixo e pronto para o próximo salto. Que venha o trimestre

Depois desse desabafo, eu Heleno me senti mais empolgado. Obrigado por me ler.

Toda a existência humana, a sua e a minha, é um intervalo entre duas eternidades, um “momento” um “instante” entre elas – tal qual a névoa que se esvai. Sim, antes de nascermos uma eternidade aconteceu, e da qual não fizemos parte, quando viermos a morrer, outra eternidade terá início, da qual não faremos parte.