É impossível falar da história da filosofia sem passar pela Grécia antiga, e consequentemente sua história. Uma vez que se convencionou localizar a filosofia como tendo um berço grego, como sendo uma expressão de pensamento racional que teria surgido entre os gregos, que teria surgido nessa época antiga. Aqui faremos associações entre filosofia, pensamento racional e o mundo grego antigo. É claro que nós iremos também desconstruir algumas dessas percepções, porque não são somente os gregos os detentores da capacidade de pensar racionalmente, afinal essa é uma capacidade humana acima de tudo e propriamente dita.
Comecemos com uma reflexão proposta por Kant, que afirma não ser possível ensinar filosofia, mas sim a filosofar, ou seja, a exercitar a razão. Observe:
“Não é possível aprender qualquer filosofia; […] só é possível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo-a seguir os seus princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou sujeitando-os”. “Não se ensina filosofia; ensina-se a filosofar.”
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 407
Perceba, primeiramente que Immanuel Kant não é um filósofo grego, Kant terá sua época na transição entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Note a expressão “exercitar o talento da razão”. “Razão”, essa palavra é importante. O ato de filosofar, segundo Kant, é um apanágio, i. e., um privilégio inerente à razão. A gente não aprende a filosofia, mas aprende o processo de filosofar, que é justamente o uso da razão, de desconstrução, de questionamento, de crítica. Não é um exagero dizer portanto que a Filosofia é o tronco da árvore do conhecimento humano, pois para a filosofia, na sua concepção tradicional e a sua concepção inicial, o ato de raciocinar, de usar da razão, a torna diferente de outras formas de conhecimento e de outras formas de pensamento.
Desde tempos imemoriais, o ser humano busca maneiras de compreender o mundo em que vive e de interferir na realidade em que está inserido. As primeiras manifestações religiosas, cujas origens remontam a épocas mais remotas, nascem com o objetivo de ofertar respostas e direcionamentos a questões que até então eram incompreensíveis aos seres humanos daquela época.
Com o tempo, essas manifestações se tornam mais complexas e passam a compor sistemas religiosos estruturados em toda uma gama de ritos, mitos, práticas e rituais, por meio dos quais essas sociedades humanas explicavam o mundo que os cercava.
O texto que está diante de seus olhos agora, procurará abordar os seguintes tópicos:
- O que é Filosofia?
- Filosofia como pensamento racional;
- O surgimento da Filosofia;
- Relações entre mito e Filosofia;
- Os períodos da história grega;
Se você está lendo ou ouvindo essas palavras, alguma resposta você deve ter para o que seja Filosofia. Filosofia é conhecimento, forma de saber que tem uma competência própria, regras próprias na forma de adquirir, edificar, solidificar, fazer crescer esse saber, esse conhecimento. Para tanto, tal empreitada precisa ser precisa, ordenada. Para Aristóteles, filosofia é o estudo das causas últimas das coisas; Cícero a entenderá como o estudo das causas humanas e divinas das coisas; Descartes entende filosofia como o raciocinar bem; Hegel a colocará no conjunto do saber absoluto.
Nós vimos que a filosofia está ligada, segundo Immanuel Kant, ao exercício de uma capacidade racional. Todas essas definições são boas e corretas. Talvez possamos apertar um pouco o passo, e dar algumas pinceladas a mais na ideia que você tem acerca da senhora filosofia. Pense na filosofia como nascente do espanto, do espantar-se. Ela nasce quando nos defrontamos com alguma ideia que por alguma razão pensávamos saber bem, mas quando desaceleramos um pouco, enxergamos a ideia como ela é, em sua nudez, ela denuncia a nossa própria nudez de pensamento, vemos então, que nada dela sabemos.
Aqui é importante sinalizar algo de grande valor, nesta jornada sob o rio da filosofia, tome o que você lerá a seguir como um convite e uma advertência, sim, uma coisa pode ser essas duas coisas. Abandone, à margem do rio, seu senso comum. Largue-o aí mesmo. Não é prudente alicerçar o saber sobre o senso comum. Por algum motivo o rio da Filosofia fica mais tumultuoso se as pedras pesadas do senso comum entrarem no seu barquinho, então por favor, deixe seu senso comum fora desse texto, de modo a nunca trazê-lo para cá, mesmo que ele tente evocar à sua mente, sem pedir sua permissão, ideias que existem para silenciar a voz da Senhora Filosofia.
Filosofia é a atitude de um pensar permanente
De forma geral, (φιλοσοφία) “filosofia” significa “amor à sabedoria” (do gr. philos, amante, e sophia, saber). O ato de filosofar corresponde a uma reflexão crítica e permanente a respeito de todas as coisas que nos cercam, sendo produto da capacidade que nós, seres humanos, temos de pensar racionalmente.
Há que se ter cuidado, contudo, com uma divisão bastante presente nos manuais escolares de filosofia: a passagem do pensamento mítico para o filosófico. Este último é, frequentemente, visto como atributo de sociedades consideradas mais desenvolvidas. Sua origem grega serve, ainda, para reforçar aspectos de uma atitude diante do mundo definida como eurocêntrica.
Ao excluir o pensamento mítico como atributo de racionalidade e creditar aos gregos o nascimento da racionalidade, automaticamente todas as outras sociedades (a maioria não ocidentais) que estruturavam sua visão de mundo em bases mais religiosas passam a ser encaradas como primitivas e inferiores em relação ao europeu.
Filosofar é uma atitude, é uma ação permanente, mas não se limita ao pensamento cotidiano. Embora todos reflitam e tomem decisões, a filosofia realizada pelos grandes pensadores da Grécia Antiga envolvia estudos mais profundos e sistemáticos. Então, querer indagar a respeito da vida, da origem de tudo, se “Deus” existe, ficar questionando a existência humana não te torna um filósofo, apesar de fazer essas perguntas ser uma atitude filosófica. Um filósofo é um minerador, que não se cansa até chegar na jóia (ideia verdadeira e pura) que tanto procurou. Note que foi cansativo procurá-la, em alguns momentos o minerador se feriu, entrou por lugares que não acreditava e trabalhou muito para encontrar a jóia que tanto cavou para ter nas mãos.
A reflexão crítica é o que caracteriza a tradição filosófica como um processo de desconstrução e questionamento constante, onde o princípio fundamental é a dúvida. Na filosofia, nada é aceito como natural ou evidente sem questionamento. Por isso se mostra assaz importante conhecer e se aprofundar na tradição filosófica e tomá-la não como um produto, mas como um aio, um suporte para um processo de reflexão crítica e autônoma. Você perceberá que a filosofia é crítica, não no sentido de apontar defeitos, mas sim no de estabelecer critérios; soma-se isto ao fato da filosofia ser o exercício da desconstrução. Podemos afirmar com todas as letras que a filosofia se faz na dúvida. A única coisa “natural” na filosofia é a dúvida, assim, falar coisas como: “Ah! As coisas são assim mesmo”, “Não sei o porquê, mas sei que é assim”, “Não questione, apenas faça!”, etc. são totalmente antinaturais.
O princípio da filosofia é a dúvida. Tentar entender as coisas como elas são. Mas isso é possível? É possível então chegarmos ao conhecimento?
O Surgimento da Filosofia
Tradicionalmente se credita o nascimento da filosofia, dessa forma de pensamento, aos gregos antigos. A história da Grécia Antiga começa em meados do século XII a.C., e neste período a única forma de se explicar o todo era utilizando os deuses do panteão grego perceba que antes do pensamento filosófico, prevalecia o pensamento mitológico, em que o mundo era explicado através de deuses e mitos. A filosofia surge como uma tentativa de abandonar essas explicações sobrenaturais, buscando explicações mais racionais, baseadas em lógica e evidências. Se antes as pessoas explicavam o mundo através dos deuses, através da mitologia, através da sua cosmogonia, a filosofia, traz uma percepção um pouco mais embasada em evidências, em questões mais abstratas, posteriormente na própria lógica. Mas será que a filosofia nasceu na Grécia, no ocidente? Pois, se “filosofia” é o uso do pensamento racional, então outros povos que não são gregos, ou seja, do ocidente, não possuem pensamento racional?
É importante questionar se a filosofia realmente surgiu no Ocidente. Civilizações orientais, como as de Confúcio na China, Buda na Índia e Zaratustra na Pérsia, também desenvolveram sistemas de pensamento que podem ser considerados filosóficos – será que não eram filósofos, uma vez que vão construir uma ideia de logos, de razão. Isso nos leva a repensar a ideia de que o pensamento racional tenha surgido exclusivamente na Grécia. Pense no Budismo, por exemplo, que é um conjunto de princípios, de condutas e de reflexões. Será que isso não é filosófico também?
Você leitor ou ouvinte que chegou até aqui, deixou para trás o senso comum, certo? Pois bem, existe, na verdade, algo que nós podemos acreditar como sendo eurocêntrico nessas perspectivas acerca do nascimento da filosofia no Ocidente. Porque normalmente se coloca o pensamento racional como sendo um tipo de pensamento que seria superior a outras formas de pensar. E quando se coloca na Grécia, ou seja, na Europa, no Ocidente, o nascimento desse tipo de pensamento, automaticamente se coloca a imagem de que essas civilizações ocidentais, europeias, elas estariam num estágio mais superior, mais “evoluídas”, marginalizando as outras, colocando-as no conjunto das “menos civilizadas”, menos avançadas – os tomamos por bárbaros. Essa visão evolucionista da história, como se em algum momento éramos piores e fomos evoluindo enquanto sociedade, é datada do séc. XIX, e hoje não se usa mais.
Todavia ainda persiste essa concepção causada por uma perspectiva eurocêntrica onde a razão é a expressão máxima do pensamento mais valorizado, nascente na Grécia, portanto na Europa. Assim, o modo europeu seria superior àquelas que nós vimos anteriormente, que baseavam as suas concepções de mundo não nesse uso racional, filosófico, mas num conjunto de mitos, num conjunto de explicações diferentes.
Assim, precisamos entender um ponto: creditar o surgimento do pensamento racional aos gregos está vinculado a uma concepção eurocêntrica, esse posicionamento é de um racismo epistêmico. E como nossa contemporaneidade está atormentada por separações, precisamos estabelecer esse pensamento crítico acerca da filosofia e sua origem.
Os gregos terão seu panteão de deidades, eles também atribuíam explicação baseada nos mitos para todo o mundo ao redor. Quem nunca ouviu falar de Hércules e seus 12 trabalhos, Zeus com seu raio na mão, Hades, cuidando do mundo dos mortos, Poseidon tendo mar como seu reino, etc. Ninguém poderá dizer que os gregos não tinham uma cosmogonia, mas aqui há um importante fato, eles serão os primeiros a tentar, de certa forma, abandonar as explicações que nós chamamos de sobrenaturais, ou seja, baseadas nos mitos e baseadas nos deuses, para tentar trazer uma explicação mais lógica, mais coerente, mais baseada em observação e evidência a respeito do mundo, de todas as coisas que nos cercam.
Observe as pirâmides do Egito. Elas são de um país na África, portanto não são da Grécia. Eles, os egípcios terão explicações mitológicas para tudo ao seu redor, portanto terão uma postura ante ao todo “inferior” a dos gregos. Se o Egito não satisfaz em nada o predicado que é exigido para tornar uma nação/cultura como superior, as pirâmides nos mostram o contrário, pois não seriam elas a expressão de um pensamento racional?
Os egípcios tinham uma percepção de mundo imersa no sagrado, intimamente atrelada à religiosidade, não havia uma separação entre religião e outras esferas da vida. Eles entendiam aspectos econômicos, políticos, culturais, todos eles como uma coisa só e tudo fazia parte de um sistema religioso, de uma percepção, de uma concepção de mundo, de um mundo religioso. Mas isso não significa que o pensamento dos egípcios se esgote por aí.
Novamente, observe as pirâmides. Assim, se nós usarmos o pensamento racional como uma expressão da lógica, como uma expressão de um pensamento mais pragmático, não se pode dizer que os egípcios não o tinham, porque eles tinham conhecimentos que envolviam a matemática, engenharia e arquitetura bastante avançados a ponto de eles conseguirem construir, essas pirâmides que estão de pé até hoje.
Haverão aqueles que tentarão construir teorias que são verdadeiros delírios acerca do Egito e suas pirâmides, como se tivessem sido erigidas por extraterrestres. Ora, pode-se incluir sem medo na conta do racismo esse tipo de postura, uma vez que nós invalidamos um povo africano, como sendo incapaz, como sendo inferior a outras culturas e povos do mundo conhecido, perceba que na perspectiva do europeu do século XIX o africano é inferior.
Mitologia
Os gregos serão sim os primeiros a afastar de si explicações mitológicas para conceber o todo ao redor, mas isso não significa que outras civilizações e outros povos, como os egípcios, não usassem o pensamento racional em outras esferas da vida.
Apesar dos gregos terem sido os primeiros a buscar explicações racionais para o mundo, eles também mantinham uma rica tradição mitológica. Os mitos, tanto gregos quanto de outras culturas, serviam como formas de explicar o inexplicável, oferecendo segurança e sentido diante do caos da existência.
Os gregos romperam gradualmente com o pensamento mitológico à medida que seu contato com outras civilizações, como os egípcios e povos da Ásia Menor, trouxe novas perspectivas sobre o mundo. Esse contato permitiu o surgimento de uma forma de pensamento mais racional e filosófica.
Perceba a importância que as primeiras sociedades darão aos mitos. Nós temos tradicionalmente, uma divisão de períodos históricos no seguinte, a pré-história, a Idade Antiga, a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea.
O que estamos tratando aqui se situa na idade antiga, ou antiguidade, que são as primeiras civilizações que surgem, tais como, os egípcios, mesopotâmicos, gregos, romanos, vamos colocar nesse recorte da Idade Antiga, os mitos serão fundamentais como formas de explicação do mundo.
Essa imagem é a de um mito grego de Deucalião e Pirra, que explica um pouco a criação da humanidade.
O mito de Deucalião e Pirra é uma narrativa da mitologia grega que conta a história dos sobreviventes de um grande dilúvio e do repovoamento da Terra. Deucalião era filho de Prometeu, rei da Ftia, e Pirra era sua prima, filha de Epimeteu e Pandora. Os deuses enviaram um grande dilúvio para punir a humanidade. Zeus se arrependeu do que havia feito, e Deucalião e Pirra foram os únicos a sobreviver e repovoaram a Terra jogando pedras no solo, que se transformaram em homens e mulheres. O primeiro filho de Deucalião e Pirra foi Heleno, que é considerado o ancestral do povo grego. Até hoje o nome da Grécia é “República Helênica da Grécia”.
Um relato acerca do fim do mundo por conta de um dilúvio não é exclusividade da Grécia. Se olharmos, por exemplo, para a Bíblia, vemos a história de Noé, a história do dilúvio, que, inclusive, é um mito que aparece em outras civilizações. Lá na Mesopotâmia, a gente tem o dilúvio também como um elemento importante, e nesse mesmo contexto.
Os mitos, são uma forma importante de explicar o mundo, são muito próprios dessas sociedades antigas, todavia, se a gente for pensar, há sociedades atuais que também usam a mitologia como uma forma de explicar as suas necessidades. Sempre colocamos o pensamento mítico como um pensamento inferior, o que seria o racional, portanto, o científico, mas são apenas duas formas diferentes de se compreender a realidade.
A Filosofia nasceu como?
Os mitos foram a primeira tentativa de seres humanos pré-históricos de explicar o desconhecido. Na ausência de conhecimento científico, questões naturais e existenciais foram atribuídas ao sobrenatural. Com o tempo, os humanos desenvolveram habilidades físicas e racionais, criando explicações mais complexas, incluindo a crença nos deuses como forma de entender a realidade. Essas opiniões já foram observadas na pré-história como tentativa de interpretação do mundo.
Você pode perguntar: “Ah, mas eles acreditavam mesmo que havia um inferno que tinha Hades por rei?” Essa é a base para que o mito se forme. Ele precisa ser concebido como verdade respaldada pela fé. Hoje, não nos cabe julgar como esses seres humanos percebiam o mundo e tentar achar falhas. Precisamos entender quais eram os anseios, quais eram as características daquele pensamento, para poder, cada vez mais, entrar nesse universo e tentar enxergar, tanto quanto possível, a realidade com os olhos daquelas pessoas.
Se formos nos aprofundar, os mitos estão por toda a parte. Pode parecer polêmico, mas você se dignou a não fazer uso do senso comum, então estará desarmado(a) para ler ou ouvir isso: O cristianismo também se vale de mitos, por exemplo o da ressurreição de Jesus; Seu nascimento virginal, os milagres a Ele atribuídos, etc. Tudo isso faz parte da mitologia do cristianismo, como explicar o nascimento de Jesus pela ótica da ciência? Estou citando isso aqui pois colocamos num lugar inferior os mitos gregos, egípcios, nórdicos, etc. sendo que, por definição, mito é mito. Será que não nutrimos um certo desdém por esses mitos porque acalentamos em nosso íntimo como verdadeiros os que alimentam a nossa fé? Pois, com isso, o cristianismo não tem mitos, os gregos, os romanos, os nórdicos, etc., sim. Vemos a mesma lógica reproduzida nas sociedades antigas, em manifestações religiosas mesmo hoje. Assim, os mitos, você não explica. Você não questiona, você apenas acredita. Os mitos atuam como uma forma de explicar e oferecer segurança frente ao desconhecido, afinal de contas, no fim do dia, todos somos seres humanos, todos dormimos e acordamos, comemos, e nos envolvemos com o mundo ao nosso redor.
O mundo, na verdade, não possui sentido algum. O mundo possui o sentido que nós damos a ele, porque a gente precisa se orientar no meio desse caos. Assim, com a segurança da fé sobre o relato mítico, nasce uma sensação de entendimento da realidade, de compreensão do mundo. Se está chovendo os deuses estão ao nosso lado, se não, fizemos algo do qual eles não estão satisfeitos, e precisamos corrigir isso. Se perdemos uma batalha, Marte não esteve do nosso lado, se ganhamos Marte apoia essa nossa luta, etc. Se Moisés mantém o cajado levantado, Jeová ajuda na batalha. Jeová até segura a rotação da terra de modo que o dia de sexta-feira dure mais, para que a batalha termine antes do shabat. A religião dá essa segurança, ao mesmo tempo que une uma comunidade dentro dessas concepções.
Veja uma representação de um mito egípcio da criação do mundo. Você vê essa mulher que está curvada em cima, como uma representação do céu. Ela é a deusa Nut, ela representa o céu. Note esse rapaz deitado, ele é Geb, uma divindade que representa a terra. Perceba que tanto Nut quanto Geb estão separados por um homem, por um deus que está com seus braços abertos, ele é o ar, que é Shu. Então, aqui nós temos uma explicação mitológica a respeito do firmamento, da terra, ar e céu. Como é que surge o céu, como é que surge a terra e como é que eles estão separados? A mitologia egípcia dá conta de explicar, através de elementos voltados aos deuses, de elementos místicos e sobrenaturais, como o firmamento, como este mundo físico em que nós vivemos, foi concebido.
A filosofia vai romper com esta barreira do pensamento mitológico, que é naturalmente baseado em elementos sobrenaturais. Mas como a filosofia vai trazer a racionalidade? E por racionalidade, o que queremos dizer? Eles abandonam, ou há uma tentativa de abandonar as explicações dos deuses para tentar chegar a explicações mais concretas, um pouco mais palpáveis a respeito da realidade. E isso acontece no contexto em que os gregos estão viajando muito.
O mar mediterrâneo dará a oportunidade de um contato com vários povos, seja do oriente próximo, seja dos egípcios, as sociedades do que hoje chamamos de Palestina. Ao expandirem pelo Mediterrâneo, os gregos com suas viagens marítimas fazem com que concepções anteriormente existentes sobre a existência de criaturas místicas, enfim, mitológicas, nessas regiões, sejam quebradas. Eles verão por exemplo que ao navegar pelo mar, não cairão pela “beirada” da Terra, que os deuses que “habitavam” aqueles lugares não existiam, ouvirão sobre outros deuses, que não o que eles acreditavam, e portanto verão que não é tanta certeza assim que exista um Zeus, uma Afrodite, uma Atena, etc. Enfim chegamos ao “nascimento da Filosofia”, pois ela vem como uma outra forma em oposição à concepção mitológica de se explicar a realidade, ela nasce de uma ruptura radical com os mitos, sendo uma primeira forma explicativa da realidade envolvendo princípios científico-racionais.
Para deixar bastante claro, há uma teoria que está deixando de existir aos poucos, uma vez que hoje nos vemos mais cônscios do pensamento eurocêntrico, e precisamos repensar isso, precisamos deixar isso de lado, mas note que por décadas nutriu-se no ambiente acadêmico uma teoria de “um milagre grego”, como se de repente eles mudassem a maneira de ver o mundo. Isso outorga a eles uma ideia de serem superiores, e isso está intimamente relacionado a uma ideia eurocêntrica do surgimento da filosofia. O pensamento científico, filosófico, racional surge na Europa, surge na Grécia, por quê? Porque eles são superiores? Os outros povos orientais, Egito, Mesopotâmia, Palestina, são vistos como primitivos. E isso, como deixamos claro, no século XIX, era muito forte, porque os europeus, no século XIX, passavam por um contexto que nós chamamos de neocolonialismo, uma tentativa dos europeus, dos principais impérios daquela época, em conquistarem, colonizarem territórios da Ásia e da África. Como admitiriam que os povos que eles estavam tentando conquistar, que eles mesmos estavam atribuindo caráter primitivo, um caráter não civilizado, pudessem ter um passado glorioso, ou quem sabe até um pensamento muito superior ao deles? Surge, na verdade, toda essa concepção de que a Grécia é, sim, o berço da filosofia, e não só o berço da filosofia, o berço da própria humanidade. Então, essa concepção eurocêntrica, passa a ser revista ao longo do século XX, agora no século XXI, e hoje nós temos uma outra forma de se interpretar o nascimento da filosofia, que é entender as relações dos gregos com os povos orientais que já estavam neste mundo muito antes dos gregos.
À medida em que os gregos passam a conhecer outras regiões e que algumas concepções a respeito de pensamentos míticos e mitológicos relativos a outras sociedades, e a própria sociedade grega também, eles começam a se desfazer, cada vez mais isso abre espaço para uma racionalização da realidade e para um abandono gradativo das concepções mitológicas. Digo “gradativo” pois logicamente não foi da noite para o dia que as pessoas pensavam em mitos e depois não pensavam mais. Para elucidar isso, vamos pegar uma linha de raciocínio, por exemplo, já entendemos que os gregos vão começar a entrar em contato com outros povos, certo? Vamos então buscar compreender a influência do pensamento oriental na gênese do pensamento filosófico grego. Criticar isso é uma tentativa de se debruçar sobre a história de uma forma global.
Precisamos também não ir para outro lado, e reduzir o povo grego a um povo que apenas copiou o que os outros fizeram. Assim como o pensamento deles foi influenciado pelo de outros povos, eles influenciaram o pensamento de outros povos.
A tese orientalista reconhecerá o nascimento da filosofia como fruto de um processo histórico, está estreitamente relacionado ao desenvolvimento da sociedade na qual surgiu. MAPA
O que nós chamamos de Grécia, os gregos chamavam de Hélade. O que entendemos como Grécia, é o país da Grécia, mas eles na época dos primeiros filósofos, são uma junção de vários povos que vão se localizando e se ficando nessa região, que não estava limitada a uma região territorial, região geográfica. A ideia de fronteira é algo mais fluído aqui, compare por exemplo com os brasileiros. Quem são os brasileiros? “Ah, eles estão no Brasil, eles residem num país na América do Sul, que têm suas fronteiras, seus limites territoriais”. Essa explicação não está errada, hoje ela está certa, no caso da Hélade, onde havia grego, era a Grécia. E eles, assim como o povo brasileiro, são uma junção de vários povos de origem indo-europeia, os Eólios, Aqueus, Jônios, Dórios, vários povos e a sua fusão, a sua integração dão origem ao que nós conhecemos como os gregos antigos – um caldeirão cultural de povos advindos de diversas regiões.
Os períodos que entendemos serem mais simples de compreender a história da Grécia são:
- período pré-homérico, que vai de 2000 a 1200 a.C.;
- período homérico de 1200 a 800 a.C.;
- período arcaico de 800 a 500 a.C;
- período clássico de 500 a 338 a.C.;
- e o período helenístico, 338 a 145 a.C.;
- período clássico de 500 a 338 a.C.;
- período arcaico de 800 a 500 a.C;
- período homérico de 1200 a 800 a.C.;
As duas coisas que precisamos entender é que, se trata de um tempo muito recuado da nossa época contemporânea, e que essa classificação “pré-homérico” e “homérico”, está muito ligada ao surgimento de uma figura icônica no mundo grego que era o poeta Homero. Não temos certeza factual de que ele foi real, mas dois livros chegaram até nós, e não podemos nem dizer que ele, Homero, é o autor. Os livros são a Ilíada e a Odisseia. Basicamente são livros narrando as histórias do povo grego antigo, uma delas é a Guerra com a cidade de Tróia, lembra? Aquela em que os gregos entraram em um cavalo feito de madeira, etc? Sabemos arqueologicamente que a cidade de Tróia existiu, todavia a história do cavalo de madeira, do povo grego adentrando pelas muralhas dentro deste cavalo, não podemos afirmar com certeza se tratar de um evento real. De todo modo, o Homero teve uma influência significativa na formação do pensamento grego e no desenvolvimento da própria língua grega.
O período pré-homérico é o período mais recuado, ainda não vamos falar em filosofia neste momento, até porque a sociedade que se desenvolve no período pré-homérico, é uma sociedade bastante diferente daquela do período clássico, um período que conhecemos bem, de Atenas, de Esparta. O que haverá no período pré-homérico é o desenvolvimento da civilização creto-micênica.
O primeiro local onde surge a civilização grega, é a ilha de Creta, que é a maior ilha deste arquipélago. A Grécia é formada por várias pequenas ilhas e Creta é a ilha mais ao sul e é a maior ilha. Teremos então uma sociedade com particularidades brilhantes! Por ser uma ilha, o comércio marítimo será um fator importante para seu desenvolvimento, a relação com o mar, com a pesca, o artesanato, etc. Há registros de trocas comerciais entre os povos desta ilha com o Egito. As trocas de cultura vão formando o povo cretense que se fundirá aos micênicos, Micenas era uma cidade que ficava mais acima de Creta. Os micênicos conquistaram a região, e aí teremos o contexto da civilização creto-micênica.
Uma outra terminologia pode ser sociedade minoica, porque ela tem a ver com o título que os reis recebiam em Creta, que é o título de Minos, que seria uma homenagem ao primeiro rei que teria existido em Creta, que é uma figura mitológica também. Você se lembra do mito do minotauro? Que teria sido uma besta que ficou aprisionada num labirinto debaixo do palácio de um rei, era desse rei Minos, que teria sido o primeiro rei.
No mito teremos Teseu como um grande herói grego que matou o Minotauro com a ajuda de Ariadne, esta colocou um novelo de lã para que ele pudesse não se perder dentro do labirinto depois que matasse o Minotauro e sair de lá com vida. Teseu enfrentará em suas viagens e lutas, percalços com seu navio. Vamos conhecer um pouco sobre esse palácio, que é o Palácio de Cnossos. Efetivamente, existem as ruínas desse antigo palácio. Elas estão razoavelmente bem preservadas, algumas partes estão ainda inteiras, mas outras nós só temos as fundações. Há galerias abaixo desse Palácio de Cnossos, que podem ser visitadas hoje na Grécia, elas simulam, um labirinto, lançando luz para nós tentarmos entender este mito do Minotauro, não como uma invenção pura e simplesmente dos gregos, mas uma pura e simples dos cretenses, perceba que se trata de algo também com certos lastros na realidade.
Nesse período pré-homérico teremos o desenvolvimento da civilização creto-micênica. Esta será invadida pelos Dórios, um outro povo que teria chegado nesta região, e teriam então promovido uma invasão e provocado o que nós chamamos de primeira diáspora grega. O que é uma diáspora?
Trata-se de uma fuga, um momento em que essa civilização passa a ocupar outras partes do território grego por medo dos dórios, que são conhecidos historicamente por terem sido muito guerreiros, eles são os pais do povo espartano, a cidade de Esparta foi fundada pelos dórios, cidade esta famosa pelo aspecto militar que ela tinha. Logicamente dizer que esta foi a primeira diáspora grega por conta do povo dórico, hoje é discutida. Acredita-se que há outras causas por trás dessa diáspora. Todavia, tal evento marcou o início do período homérico, do período de Aedos e de Rapsodos.
Aedos eram poetas que compunham e cantavam os seus poemas, acompanhados de um instrumento, como a lira ou o fórminx. A palavra “aedo” vem do grego clássico e significa “cantor”. Os aedos eram inspirados pelas musas¹ e praticavam o culto a elas e à deusa Memória. Os seus poemas celebravam os deuses e os feitos dos heróis.
Rapsodos eram poetas que imitavam² as obras de outros poetas, sem serem acompanhados de nenhum instrumento. Os rapsodos levavam uma vida itinerante, indo de cidade em cidade para apresentar os seus poemas. Os rapsodos mais famosos eram Homero, Arquíloco de Paros e Simonide de Amorgos.
Teremos a formação de uma sociedade gentílica. O que significa isso? Uma sociedade formada por genos, que são aldeias, são pequenas comunidades rurais. No período creto-micênico, eles serão mais urbanos, no período homérico, mais gentílico, mais em aldeias, mais rural, mais pluralizada.
As aldeias passam a ser o centro da vida das pessoas várias questões se colocam agora diante de nós, pois haverão agora disputas por terras férteis, uma hierarquização cada vez maior dessa sociedade, daqueles que controlavam as melhores terras, que vão começar a fazer parte de uma aristocracia, que entre os gregos nós chamamos de eupátridas. Percebeu que há uma modificação da sociedade grega?
A Grécia é profundamente marcada por uma estratificação social, em que alguns dominam as melhores terras, e outros, membros de famílias talvez menos importantes, ou teriam que trabalhar para esses eupátridas, eles teriam que se deslocar, se dispersar em busca de novas terras. Teremos então a segunda diáspora grega marcando o fim do período homérico.
Teremos com essa segunda fuga, o início do período arcaico, um período em que nós vemos a ocupação de outras partes do território grego, algo que vai ser muito importante para nós – o surgimento das primeiras pólis, ou seja, das primeiras cidades-estado. E estas não são cidades como as imaginamos hoje. Essas são o que chamamos de cidades-estado.
A urbanização, deixou na memória um estímulo ao debate em praça pública. Com a cidade, nós temos o surgimento da filosofia. Por quê? Porque, nesse contexto, o ser humano se vê como responsável por suas próprias ações e passa a fazer o exercício da reflexão e da diversidade, divergência de ideias, o debate político, ou seja, público, a arte do convencimento do seu oponente, também são um terreno fértil para o desenvolvimento do pensamento filosófico. Várias discussões sobre o que é a polis grega, a importância da vida cívica, da cidadania, que especialmente em cidades como Atenas, serão cruciais para o desenvolvimento posterior, por conta da democracia, forma de governo que nascera ali, dessas cidades-estado. Não haverá um imperador ou mesmo rei na Grécia, e sim cada cidade com suas características particulares, desenvolvendo-se de forma autônoma e dando contornos muito próprios à sua vida política e esta, vale a pena repetir, é um terreno fértil para a filosofia, para a consolidação de um discurso racional comum a todos.
Em resumo, acompanhe: conhecemos o período arcaico, com o desenvolvimento da cidade. período clássico, com o esplendor deste mundo grego, com a atuação da cidade de Atenas, com o contato com outros povos, o desenvolvimento das artes, o desenvolvimento da filosofia.
Teremos então o último período da história grega, que é o helenísco. Este é marcado pelo declínio deste mundo grego e da independência dessas cidades-estado. O grande marco de transição será a guerra do Peloponeso, que enfraquece as cidades gregas e abre espaço para que o pai de Alexandre o Grande, que era o rei da Macedônia, Felipe II, invadisse o território e conquistasse as cidades gregas.
Alexandre o Grande é um elemento importante para esse período, teve como professor Aristóteles, e com um império enorme sendo formado, a sua ideologia cosmopolita tentará imprimir o pensamento grego em todo o mundo dominado por ele. Porque Alexandre conquista muitos povos orientais e leva o pensamento grego para esses outros povos também.
Ademais, as guerras médicas, que são as guerras com o povo persa, colocando o povo grego em contato com o povo do oriente, o surgimento da moeda, a invenção do alfabeto, a esquematização do calendário, etc. Guarde na memória: A filosofia é filha da cidade, é filha do relacionar-se em um ambiente que é público. A filosofia atinge seu esplendor, sua época de ouro, justamente quando as cidades gregas atingem o ápice de seu desenvolvimento.
Será na Ágora, este debate cívico, o debate que alimentará a democracia acontece em uma praça pública que tinha o nome de Ágora. Conseguiu compreender que este é o ambiente, o contexto para o abandono das explicações míticas? Que agora precisamos de posicionamentos pautados em coisas sólidas, uma vez que precisamos convencer o oponente, o mundo político exige isso.
Os períodos que a filosofia seguirá na Grécia antiga destoa dos períodos da Grécia antiga, ou seja a história da filosofia perpassa pela Grécia, mas não acompanha a história da Grécia, mesmo sendo importante conhecer e se aprofundar na história deste povo. Em linhas gerais os períodos da filosofia na Grécia seguem essa linha:
- Período PRÉ-SOCRÁTICO – VII a V a.C.
- Período SOCRÁTICO – V e IV a. C.
- Período SISTEMÁTICO – IV e III a.C
- Período HELENÍSTICO – III a.C. a IV d.C.
O desenvolvimento do pensamento pré-socrático, ocorreu na transição entre o arcaico e o clássico. Assim você percebe que não segue historicamente falando uma sequência, mas estão intimamente relacionados. Nunca podemos desassociar o desenvolvimento da filosofia do seu contexto histórico.
O senso comum é uma atitude confortável, diferente da atitude filosófica. Rubens Alves disse uma vez que o animal saciado dorme. Dorme porque está saciado. Muitos em nossa época contemporânea se sentem ricos e abastados, e de fato somos, temos acesso hoje em dia a tanta mas tanta informação que vivemos com uma ideia de saciedade, afinal, sabemos de mais. Temos mapas mais detalhados de Marte, conhecemos os buracos negros, temos fotos de buracos negros, mas não sabemos lidar com a nossa existência. A atitude do senso comum é uma atitude confortável e a filosofia vem para nos provocar a reflexão, nos chamar para o pensamento, a sermos mineradores de ideias.
Filosofia é uma atitude que incomoda, porque ela critica, ela desconstrói, ela desestabiliza, logo se segue que muitos não vão seguir esse caminho, preferindo o conforto do monstrinho do senso comum, pois lá é mais confortável, é claro que aqui, nos espaço dessas palavras, não vamos ficar no monstrinho do senso comum, aqui é um espaço para exercer o nosso ato de filosofar, e transformar este no melhor intervalo possível.
SÍNTESE EM TÓPICOS
- Kant e o ato de filosofar: Filosofia como exercício da razão, não algo que se aprende como uma doutrina fixa.
- Pensamento cotidiano versus pensamento filosófico: A diferença entre o filosofar no cotidiano e o filosofar sistemático dos filósofos.
- Surgimento da filosofia na Grécia Antiga: Em oposição ao pensamento mitológico, buscando explicações racionais.
- Mitologia e filosofia: Coexistência de mitos e filosofia na Grécia Antiga, com uma transição gradual para o pensamento racional.
- Influências orientais: O pensamento filosófico grego foi influenciado por outras civilizações, como Egito, Mesopotâmia e Pérsia.
- Filosofia como processo histórico: O surgimento da filosofia está relacionado às mudanças sociais e aos contatos culturais dos gregos.
referências:
BURNET, J. A aurora da Filosofia Grega. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
CASORETTI, A. M. A ascética da alma na antiguidade grega: orfismo e pitagorismo. Dissertação (Mestrado). PUC-SP, São Paulo, 2014.
OLIVA, A.; GUERREIRO, M. Os pré-socráticos. A invenção da Filosofia Moderna. Campinas: Papirus, 2000.
PORTO, C. M. O atomismo grego e a formação do pensamento físico moderno. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 35, n. 4, 2013.
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¹ As nove musas canônicas eram: Calíope: Significa “a de bela voz”; Clio: Significa “a que celebra”; Erato: Significa “amorosa”; Euterpe: Significa “deleite”; Melpômene: Significa “cantar”; Polímnia: Significa “muitos hinos”; Tália: Significa “florescer”; Terpsícore: Significa “deleite da dança”; Urânia: Significa “a celestial”;
² Sócrates tomará os rapsodos como imitadores da imitação, pois não eram poetas inspirados pelos deuses.
