O Reflexo de Narciso, uma Vitrine da Sociedade

CARAVAGGIO, “Narciso” -Ano: c. 1597-1599 Técnica: óleo sobre tela Dimensões: 113,3 x 95 cm. Localização: coleção particular, Roma, Itália.

Diante do espelho d’água em que Narciso se contempla, Caravaggio, um dos mais notáveis pintores italianos no início do Barroco, nos oferece mais do que a beleza trágica de um mito: ele nos lança à imagem de nós mesmos, afinal, nossa história de amor por nós mesmos, nos faz concordar com uma leitura bastante pessimista de nossa natureza. Nos buscamos tanto, tanto, mas tanto, que não sabemos quem somos até hoje. Narciso, curvado sobre sua própria aparência, não percebe que se afoga na ilusão do seu reflexo — e que jamais tocará o que tanto deseja. Por isso, penso eu, cada vez mais incorremos no erro da busca por nós. Pare de se procurar.

Também nós nos curvamos, hoje, diante das vitrines digitais nesta sociedade do espetáculo. Somos imagens de nós mesmos, etiquetas ambulantes, como disse Drummond:

“Letras falantes, 
Gritos visuais, 
Ordens de uso, abuso, reincidências. 
Costume, hábito, premência, 
Indispensabilidade, 
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
Escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
Seja negar minha identidade, 
Trocá-la por mil, açambarcando 
Todas as marcas registradas, 
Todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
Eu que antes era e me sabia 
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
Ser pensante sentinte e solitário 
Com outros seres diversos e conscientes 
De sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio

Corpo, Carlos Drumond de Andrade, 1984.

Vivemos uma era em que tudo precisa ser mostrado, compartilhado, aprovado. Nunca a teoria da mímesis, “imitação” teve um laboratório tão notável e evidente, como em nossa época contemporânea.

Como Narciso, buscamos desesperadamente saber quem somos, mas só o fazemos através dos olhos do outro, da validação, do “curtir”. A identidade se transforma em performance. O sujeito vira produto. E assim seguimos — expostos, mas ocultos. Vistos, mas não conhecidos. Espelhados, mas ausentes. Como Narciso, consumimos a nós mesmos na tentativa de existir. Mas talvez, como ele, estejamos condenados a jamais nos encontrar.

CARAVAGGIO, “Narciso” – Ano: c. 1597-1599 Técnica: óleo sobre tela Dimensões: 113,3 x 95 cm. Localização: coleção particular, Roma, Itália.

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