Nietzsche, com certeza, é tido como um filósofo da amoralidade. Na obra Genealogia da moral, ele buscará encontrar onde surgiram os conceitos de bom e de mal entre os povos e desenvolverá uma intensa crítica aos valores morais. Dividida em três dissertações, partindo desde Sócrates, com as obras de Platão, passando para a ideologia judaico-cristã, terminando com o ascetismo.
O filósofo inicia da seguinte pergunta: “Qual a origem das nossas ideias de bem e de mal? Porque atribuímos ao valor “bem” um valor superior ao valor “mal”? Nietzsche não parte na sua crítica à moralidade de nenhum motivo transcendente, de nenhum deus que veio revelar ao ser humano princípios de como agir; ele proporá um olhar sobre a moralidade que se oponha à ética cosmológica dos gregos, a ética teológica dos medievais, e à ética racionalista dos modernos.
No primeiro capítulo de Genealogia da moral, vemos o filósofo se debruçando sobre a psicologia do cristianismo. O autor discutirá a origem dos valores morais a partir do antagonismo metafísico de duas classes, a dos senhores e a dos escravos. Com isso, o autor deseja entender as condições da criação dos juízos morais e a consequência desses juízos para o desenvolvimento das sociedades.
Duas morais
A classe dos senhores teria duas classes rivais, a guerreira e a sacerdotal. Esta, inventa o espírito; aquela, cultua os valores do corpo. Justamente, da rivalidade dessas duas classes, da guerreira e da sacerdotal, é que surgem essas duas morais das quais Nietzsche trata: a dos senhores, por um lado, e a dos escravos, do outro. Aqui é importante nos localizarmos acerca do antônimo de “bom”, que pode ser “mau” ou “ruim”. Note que se trata de dois antônimos que não são sinônimos, afinal “ruim” e “mal” não são as mesmas coisas.
Para a moral dos senhores, isto é, os fortes, os nobres e os sadios, o termo “bom” tem como antônimo o termo “ruim”, leia: “O pathos da nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um “sob” – eis a origem da oposição “bom” e “ruim”. (O direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber a própria origem da linguagem como expressão de poder dos senhores: eles dizem “isto é isto”, marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas.)” (NIETZSCHE, 2009, p. 17)
A moral, nesse contexto, representa um conjunto de diretrizes, normas, valores e tradições que dirigem o comportamento de uma sociedade ou grupo de pessoas. Essas diretrizes servem como critérios para avaliar eventos, situações e a conduta dos indivíduos diante de desafios extremos.
Parâmetros reais?
O propósito da moral procurará estabelecer padrões para as ações dos indivíduos em uma comunidade, todavia, se tais critérios se mostram reféns de sua própria época e de um determinado grupo social, como podemos desenvolver um sentimento de solidez sobre determinado valor moral, uma vez que os mesmos são a última instância de nossa razão sobre o certo, o correto, o bem, etc.?
Como podemos ter certeza se o valor moral que cultivamos é de fato um parâmetro, uma regra, um norte sólido e verdadeiro a ser seguido, a ser pautado por nossos juízos? Vê-se, portanto, quão caros são, em face de nossa existência, tais parâmetros, muitas vezes apenas impostos, passados de geração a geração. Termos bem firmes nossos pés sobre este tema se mostra de vital importância.
Um bom exemplo para o pensamento do autor seria o de uma luta. Ao pensarmos neste exemplo, podemos conceber um lutador bom e um lutador ruim. O lutador “bom” seria aquele que possui uma técnica melhor do que o outro, uma vez que este perde, assim o lutador bom vence o ruim, afinal este é um mau lutador dá-se à moral dos senhores uma avaliação técnica. Isso dá ao campeão um sentimento de orgulho, ao passo que para Nietzsche “Este orgulho deve ser humilhado, e esta valoração desvalorizada: isso foi feito?… Para mim é claro, antes de tudo, que essa teoria busca e estabelece a fonte do conceito “bom” no lugar errado: o juízo “bom” não provém daqueles aos quais se fez o “bem”! Foram os “bons” mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu. (NIETZSCHE, 2009, p. 16)
Avaliação moral
Por outro lado, na moral dos escravos, os fracos, os doentes e os escravos utilizam como antônimo para o “bom”, o “mal” e não o termo “ruim” como a moral dos senhores, pensando pelo viés da crueldade não o da técnica. Aqui vemos uma avaliação moral e não técnica, é dos escravos a origem artificial da moral, observe:
“A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador.” (NIETZSCHE, 2009, p. 26)
E prossegue: “Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação. O contrário sucede no modo de valoração nobre: ele age e cresce espontaneamente, busca seu oposto apenas para dizer Sim a si mesmo com ainda maior júbilo e gratidão – seu conceito negativo, o “baixo”, “comum”, “ruim”, é apenas uma imagem de contraste, pálida e posterior, em relação ao conceito básico, positivo, inteiramente perpassado de vida e paixão, “nós, os nobres, nós, os bons, os belos, os felizes!” (NIETZSCHE, 2009, p. 26)
Transvaloração dos valores
Qual é a consequência disso tudo? Quando os fortes deixam de fazer uma avaliação técnica e passam a fazer uma avaliação moral, se dão conta de que eles são os maus, gerando um certo tipo de arrependimento. Com isso, os fortes não são mais fortes, eles deixam de ser lobos e passam a ser ovelhas, ou seja, animais de rebanho. Vemos uma dupla origem para nossos juízos de valor, resultantes em duas formas distintas de avaliar a vida: a primeira, com a moral dos senhores, a segunda, com a moral dos escravos.
Ao buscar os embriões da moral, Nietzsche mostrará uma transvaloração de valores. Essas duas morais conviveram com a história da humanidade, todavia, a partir do judaísmo e do cristianismo surgiu a revolta dos escravos, observe: “com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa…” (NIETZSCHE, 2009, p. 23)
Essa revolta se consolidou como a única moral, deixando de lado a moral dos senhores. Nietzsche destacará que, com o cristianismo e com o judaísmo, houve uma vitória da moral dos escravos sobre a moral dos senhores, e haverá uma certa munição para isso, com autores como Platão (428/427 – 348/347 a.C.). Com a consolidação de uma única moral, a moral dos escravos, ocorre então esta transvaloração dos valores, onde o bom passa a ser o pobre, o miserável.
Moralismo doentio
Na segunda dissertação de Genealogia da moral, o tema da “má consciência” e o da “culpa”
serão trabalhados. Nietzsche trabalhará com uma psicologia da consciência moral. O tema
merece certo destaque, afinal o filósofo abrirá os olhos de seus leitores para algumas verdades que são vedadas aos nossos olhos por conta de nossa moralidade, a moralidade na qual estamos inseridos.
Nietzsche observará, por exemplo, que ao vermos alguém sendo punido, ficamos satisfeitos, afinal, através da “punição ao devedor” o credor participa de um direito dos senhores, experimentando o poder de ser superior. Vemos portanto que a crueldade é da natureza humana, observe: “Ver-sofrer faz bem, fazer-sofrer mais bem ainda – eis uma frase dura, mas um velho e sólido axioma, humano, demasiado humano, que talvez até os símios subscrevessem: conta-se que na invenção de crueldades bizarras eles já anunciam e como que “preludiam” o homem. Sem crueldade não há festa: é o que ensina a mais antiga e mais longa história do homem – e no castigo também há muito de festivo!” (NIETZSCHE, 2009, p. 51)
No tempo em que a humanidade ainda não se envergonhava de sua natureza, de sua crueldade, a história humana era muito mais feliz em detrimento desse pessimismo no qual vivemos em nossa época contemporânea. Um doentio moralismo ensinou ao ser humano a ter vergonha de todos os seus instintos, por isso que a interioridade é uma perversão de nossos instintos – todos os instintos não exteriorizados acabam por se interiorizar, dando um chão ao mundo interior, chão este que não existia, afinal nossos instintos eram exteriorizados.
Instintos reprimidos
Com o surgimento artificial da moralidade, da qual Nietzsche primeiro dissertou em sua obra Genealogia da moral, nasce o conceito de culpa, de má consciência, observe: “Efetivamente por isso o homem agressivo, como o mais forte, nobre, corajoso, em todas as épocas possuiu o olho mais livre, a consciência melhor: inversamente, já se sabe quem carrega na consciência a invenção da “má consciência” – o homem do ressentimento! Afinal, consultemos a história: a qual esfera sempre pertenceu até agora a administração do direito, e também a própria exigência de direito? À esfera dos homens reativos, talvez? Absolutamente não; mas sim à dos ativos, fortes, espontâneos, agressivos.” (NIETZSCHE, 2009, p. 58, 59)
O que é a consciência para Nietzsche? Nada mais é que o instinto de crueldade que não se exterioriza, por ter sido impedido para tal, e acaba por se interiorizar. A má consciência, assim, é entendida como sendo os instintos reprimidos que por serem impedidos de se exteriorizar se interiorizam, voltando-se contra o ser humano, como diz o filósofo:
“Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem: é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’. Todo o mundo interior, originalmente delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora.” (NIETZSCHE, 2009, p. 67)
Origem da má consciência
O castigo evolui, adquirindo a implicação de incitar sentimentos de falta de responsabilidade, remorso e má consciência. Segundo JÚNIOR, “o preço a ser pago pela passagem da barbárie à ordem social é o represamento das correntes de energia instintiva” (JÚNIOR, 2001, p. 46), afinal, é o que teríamos num estado de natureza. Transita-se de uma fase em que o castigo serve como reparação por um dano ou dívida para outra em que o castigo é considerado como culpa.
“Uma vez que, sob a pressão da “camisa de força da sociedade e da paz”, não era mais possível – a não ser sob a forma regulamentada dos castigos penais – exercer a agressividade voltada para o exterior, a hostilidade – que não pode ser simplesmente erradicada – é internalizada e assume a forma da autopunição; esta se apresenta, então, como meio substitutivo para a descarga dos impulsos hostis” (Idem, p. 46)
E Nietzsche ecoa, “Aqueles terríveis bastiões com que a organização do Estado se protegia dos velhos instintos de liberdade – os castigos, sobretudo, estão entre esses bastiões que fizeram com que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre e errante se voltassem para trás, contra o homem mesmo. A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição – tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má consciência.” (Nietzsche; 2009, p. 68).
Instintos suspensos
E, quase como que cirurgicamente, com os pés em sua época contemporânea, nasceu, isto é, assim veio ao mundo a pior de todas as doenças, segundo Nietzsche, a qual fez refém a agenda do pensamento humano desde então, o do ser humano doente de si próprio, em guerra contra seus instintos, o ser humano é tido como um animal feroz, seja internamente, seja exteriormente, observe:
“Vejo a má consciência como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz. O mesmo que deve ter sucedido aos animais aquáticos, quando foram obrigados a tornar-se animais terrestres ou perecer, ocorreu a esses semi animais adaptados de modo feliz à natureza selvagem, à vida errante, à guerra, à aventura – subitamente seus instintos ficaram sem valor e ‘suspensos’.” (NIETZSCHE, 2009, p. 67)
O valor da verdade
Ao chegar à terceira dissertação, O que significam ideais ascéticos, Nietzsche vai tratar acerca da vontade humana, e como esta precisa de um objetivo. Tal objetivo se dá em face do nada, observe: “Porém, no fato de o ideal ascético haver significado tanto para o homem se expressa o dado fundamental da vontade humana, o seu horror vacui [horror ao vácuo]: ele precisa de um objetivo – e preferirá querer o nada, a nada querer.” (NIETZSCHE, 2009, p. 87).
A vontade do nada, ligada ao ideal ascético se dá de muitas formas, incluindo a vontade de verdade, pois a busca do “em si” das coisas é uma vontade metafísica de verdade, ou seja, “de cima”, “daquilo que é imaterial, do além”. Ao tratar a moral como um problema, Nietzsche resultará em questionar qual o valor da verdade e o que ela provoca, o que ela nos faz sentir, e sobre os sentidos, o autor observa:
“A atitude à parte dos filósofos, caracteristicamente negadora do mundo, hostil à vida, descrente dos sentidos, dessexualizada, e que foi mantida até a época recente, passando a valer quase como a atitude filosófica em si – ela é sobretudo uma conseqüência da precariedade de condições em que a filosofia surgiu e subsistiu: na medida em que, durante muitíssimo tempo, não teria sido absolutamente possível filosofia sobre a terra sem o invólucro e disfarce ascético, sem uma auto incompreensão ascética.” (NIETZSCHE, 2009, p. 97)
Niilismo absoluto
O corpo é apenas um veículo para a alma, sofrimento, tortura, tristeza e a dor tornam-se meios para os idealistas ascéticos. Note que para o autor, tudo o que dificulta a vida torna-se sinal de sua afirmação, de que são dignos, como tendo algum valor. Esse valor se dá pela liberação do sofrimento, pela abnegação, pela autotortura e as calúnias contra a própria vida que o ascético faz.
“Pois o que seria “belo”, se a contradição não se tornasse primeiro consciente de si mesma, se antes a feiúra não houvesse dito a si mesma: “eu sou feia”?.. Isso ao menos tornará menos enigmático o enigma de como se pode insinuar um ideal, uma beleza, em noções contraditórias como ausência de si, abnegação, sacrifício; […]” (NIETZSCHE, 2009, p. 70) O autor entende que os filósofos metafísicos difamam a vida, a fim de afirmar apenas sua existência como filósofos. Não chegam a negar toda a existência, pois apenas a existência deles próprios é que eles afirmam, mesmo cansados, degradados.
Os ideais ascéticos representam uma manifestação do niilismo absoluto em nossa época. Aqui, a crítica de Nietzsche atinge seu ápice, considerando os valores ascéticos como a conclusão, resultado do ressentimento e da má consciência. O sacerdote ascético desempenha um papel crucial nesse processo, como já discutido nos textos anteriores e a ser abordado mais adiante. Esses ideais transformam a vida contra si mesmos, refletindo a busca da vontade de potência para dominar a si mesma.
Animal delicado
Escrevendo sobre o sacerdote, ele diz: “A dominação sobre os que sofrem é o seu reino, para ela o dirige seu instinto, nela encontra ele sua arte mais própria, sua mestria, sua espécie de felicidade. Ele próprio tem de ser doente, tem de ser aparentado aos doentes e malogrados desde a raiz, para entendê-los – para com eles se entender; mas também tem de ser forte, ainda mais senhor de si do que dos outros, inteiro em sua vontade de poder, para que tenha a confiança e o temor dos doentes, para que lhes possa ser amparo, apoio, resistência, coerção, instrução, tirano, deus.” (NIETZSCHE, 2009, 106-107)
E acrescenta: “Ele tem que defendê-lo, ao seu rebanho – contra quem? Contra os sãos, não há dúvida, e também contra a inveja que têm dos sãos; ele tem que ser o opositor e desprezador natural de toda saúde e toda potência tempestuosa, dura, desenfreada, violenta e rapace. O sacerdote é a primeira forma do animal mais delicado, que despreza mais facilmente do que odeia.” (NIETZSCHE, 2009, 106-107)
Nesse terreno assustador, encontramos figuras como padres, pastores, diversos psicólogos e filósofos, sendo para Schopenhauer possíveis representantes proeminentes dessas semelhanças. O sacerdote é a primeira forma do que Nietzsche (2009, p. 107) vai chamar de “animal delicado”.
Atitude filosófica
O autor aqui não negará os ideais ascéticos, tais como a pobreza, a humildade ou a castidade – é o idealismo dos usos destes que ele criticará. Pode-se ser forte, por conta da pobreza, pode- se fazer uso de certas doses de humildade, pode-se mergulhar na castidade para reunir forças criativas, mas não ficar mergulhado nela, não beber apenas da humildade, e não pensar que ser pobre é o que te dá força, por serem ideais baseados em uma metafísica, Nietzsche (2009, p. 95) proporá um olhar crítico sobre esses ideais, uma vez que, inatingíveis, nos diminuem.
“Todas as coisas boas foram um dia coisas ruins; cada pecado original tornou-se uma virtude original. […] Os sentimentos gentis, benevolentes, conciliadores e compassivos Os sentimentos brandos, benevolentes, indulgentes, compassivos – afinal de valor tão elevado, que se tornaram quase os “valores em si” – por longo tempo tiveram contra si precisamente o autodesprezo: tinha-se vergonha da suavidade, como hoje se tem vergonha da dureza.” (NIETZSCHE, 2009, p. 95). O fato da cultura não se trata apenas da reprodução, elas não se reproduzem apenas, elas orbitam o processo de superação, o que para o filósofo, é algo mais profundo, leia:
“[…] o espírito filosófico teve sempre de imitar e mimetizar os tipos já estabelecidos do homem contemplativo, o sacerdote, o feiticeiro, o adivinho, o homem religioso, em suma, para de alguma maneira poder existir: por um longo tempo o ideal ascético serviu ao filósofo como forma de aparecer, como condição de existência – ele tinha de representá-lo para poder ser filósofo, tinha de crer nele para poder representá-lo. A atitude à parte dos filósofos, caracteristicamente negadora do mundo, hostil à vida, descrente dos sentidos, dessensualizada, e que foi mantida até a época recente, passando a valer quase como a atitude filosófica em si – ela é sobretudo uma consequência da precariedade de condições em que a filosofia surgiu e subsistiu: na medida em que, durante muitíssimo tempo, não teria sido absolutamente possível filosofia sobre a terra sem o invólucro e disfarce ascético, sem uma auto incompreensão ascética.” (NIETZSCHE, 2009, p. 97)
Intelecto da existência
Vemos aqui os ideais ascéticos como históricos, o autor quase nos convida a não julgá-los, mas a analisar seus efeitos – observe que a filosofia só existiu e foi possível escondida e “disfarçada de asceticismo”: “[…] uma vida ascética é uma contradição: aqui domina um ressentimento ímpar, aquele de um insaciado instinto e vontade de poder que deseja senhorear-se, não de algo da vida, mas da vida mesma, de suas condições maiores, mais profundas e fundamentais; aqui se faz a tentativa de usar a força para estancar a fonte da força; aqui o olhar se volta, rancoroso e pérfido, contra o florescimento fisiológico mesmo, em especial contra a sua expressão, a beleza, a alegria;” (NIETZSCHE, 2009, p. 99)
Os filósofos beberam da mesma fonte de padres ascéticos ao tratar a vida como um erro, e portanto sendo obrigatório se distanciar dela, o sacerdote ascético, o sujeito puro, indolor e atemporal, quer afirmar a realidade que está fora da realidade, como que tateando-a, querendo a encontrar, soando para o autor como “uma vontade de nada, uma aversão à vida, uma revolta contra os mais fundamentais pressupostos da vida […]” (NIETZSCHE, 2009, p. 140).
Nada está mais longe do método filosófico de Nietzsche, pois é contrário ao idealismo metafísico de uma “única verdade”, pois para ele, quanto mais perspectivas, mais afetos, ocorre uma imersão do intelecto na existência. “Existe apenas uma visão perspectiva, apenas um “conhecer” perspectivo; e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito” dela, nossa “objetividade”. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? – não seria castrar o intelecto?…” (NIETZSCHE, 2009, p. 101)
O nascer dos rebanhos
Nesta terceira dissertação, o autor apontará que os ideais ascéticos não significam a busca do vazio e do nada, pelo contrário, é justamente um horror a este vazio, e uma busca por objetivos. Toda a idealidade dos ideais da história, o autor apontará, é ascética. Há, portanto, para Nietzsche, uma íntima relação entre vontade e ideal ascético. Quando o ser humano se eleva da mera sujeição animal, quando está acima de instintos, ele acaba agindo a partir da vontade, eis um ponto positivo deste ideal, afinal, este ideal acaba produzindo um abismo, uma fissura enorme e profunda, e sobre esta fissura, este abismo, a vontade criará uma ponte. O ser humano se torna assim, ponte, entre ele próprio e o Übermensch “além-homem”. O ideal ascético, assim, foi o único ideal.
Sua crítica sustenta um além do bem e do mal, da vontade metafísica da verdade, o olhar de Nietzsche repousou sobre os modos de vida que sustentam uma vontade de verdade, de poder. Tais modos de vida vão dizer dessa vontade e não o contrário, de modo que não há nada em si mesmo, tal trabalho ele deixa para filósofos da metafísica, todo sacerdote ascético é um diretor de ressentimento e, portanto, aponta para um inimigo, para um culpado, por sentir-se doente, ou pelo sofrimento. Isso reúne todos os que assim se sentem e nasce um rebanho, que para Nietzsche:
“[..] a formação do rebanho é avanço e vitória essencial na luta contra a depressão. O crescimento da comunidade fortalece também no indivíduo um novo interesse, que com freqüência bastante o eleva acima do elemento mais pessoal do seu desalento, sua aversão a si mesmo [..]” (NIETZSCHE, 2009, p. 116). Há um fornecimento de cura que aumenta a doença. O padre, por ser ascético, e ressentido, conforta o doente, fazendo-o sentir-se culpado pela dor, afinal, esta é fruto de uma punição, é fruto de um erro. Ou, nas palavras de Nietzsche (2009, p. 121) “a reinterpretação do sofrer como sentimento de culpa, medo e castigo”.
Moral, criação humana
Vimos que em sua obra Genealogia da moral, Nietzsche nos apresenta a história e a origem dos valores morais. E justamente a partir de uma inversão de valores, ou seja, de uma transvaloração de valores, que se deu com a consolidação da moral dos escravos, conforme a sua primeira dissertação, é que surgiu a culpa e a má consciência – uma interiorização dos instintos reprimidos.
Ressentidos, destruímos os valores vitais e partimos em defesa de uma moral ascética dos fracos. A conclusão de Nietzsche, apesar de parecem complexas, são bastante simples: não há valores, noções absolutas de bem e mal. Tais critérios são artificiais, criados pelo ser humano ao longo da história, orbitando as necessidades das pessoas ao longo das eras de todas as épocas que nos precederam. A moral, portanto, é criação humana, produto da história humana, sobretudo das religiões.
Nietzsche identifica o alarmante fenômeno do "processo de interiorização do homem", que resultou na retração dos instintos, causando dores e sofrimentos. O ser humano, antes caçador, conquistador e dominador, foi subjugado pela religião e moralidade, tornando-se domesticado. A mudança ocorreu quando os instintos, anteriormente direcionados para a conquista e sobrevivência, perderam sua utilidade. Segundo Nietzsche, isso levou a uma desorientação, transformando o indivíduo em um ser dócil, enfraquecido e, em última análise, doente.
Ordem, segurança, certeza
Ao abordar o ressentimento, má consciência e ideais ascéticos, Nietzsche critica a distorção na moralidade cristã, com influências da filosofia platônica. Ambas, ao retirarem a importância do mundo concreto em favor de uma esfera abstrata e espiritual, tornaram-se prejudiciais à existência concreta dos indivíduos. A moralidade cristã é considerada o ápice de um processo que suprimiu a visão trágica de mundo dos antigos gregos, substituída pela tradição socrático- platônica. Enquanto o platonismo, apesar do ascetismo, mantinha uma visão otimista ao acreditar no poder da razão para garantir a felicidade, o cristianismo adota uma perspectiva mais sombria e decadente, incorporando pecado e culpa como meios coercitivos.
Isso resultou na incapacidade do indivíduo de afirmar plenamente suas forças, sendo dominado pela moralidade dos costumes, especialmente a judaico-cristã. Assim, um avanço significativo do homem na era moderna consiste em assumir um papel central no controle e direção do mundo, visando estabelecer ordem e segurança pessoal. “O ‘Projeto Moderno’, se é que ele existiu, seguiu-se à exigência de ordem: firmeza e clareza das leis que governam a sociedade de alto a baixo e, com isso, garantir a previsibilidade, transparência e certeza tão nítida e dolorosamente ausente da condição humana” (BAUMAN apud BITTENCOURT, 2011, p. 8)
Podemos, portanto, a partir da filosofia a de Nietzsche, entender claramente não haverem valores absolutos, não há uma ética ou moral universal, eterna e absoluta, o que reverbera na sociedade atual, capitalista, onde tudo é raso, facilmente comprado, onde vemos que a moral, levada às últimas consequências, nada acrescenta no mundo real, e acaba por imprimir em nós mesmos um sentimento de insatisfação em face da realidade aparente das coisas. Além disso, a identificação da racionalidade instrumental, que elevou o homem como o ser supremo sobre si mesmo e a natureza, proporcionando autonomia nas ações, tornou-o o único capaz de liderar a revolução necessária para um progresso efetivo.
Vida em abundância
Bauman dirá que “O espírito moderno estava animado por um esmagador desejo de solidez e nutriu uma esperança de sólidos perfeitos, descartando novas improvisações e oferecendo descanso e tranquilidade onde a inquietude e o trabalho pesado, maçante eram norma”. (BAUMAN apud BITTENCOURT, 2011, p. 8).
Ler, se aprofundar em filósofos que buscaram os embriões da existência humana, sobretudo no que tange à temática da moral – uma vez que esta se mostra nossa forma de ser e estar no mundo – é de vital importância. Espera-se que, ao término dessa ágil, simples e profunda análise de seus textos, Nietzsche seja melhor visto e mais bem quisto, clareando o intelecto e ampliando a visão de mundo de todo aquele que honestamente busca uma vida virtuosa, uma existência de vida, e esta em abundância.
REFERÊNCIAS
PLATÃO. Fédon. Trad. Adalberto Roseira. 1ª ed. Hunter Books Editora: São Paulo, 2013.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. 1ª Ed. Zahar: Rio de Janeiro, 2000.
PERRINE, M. Quatro lições sobre a ética de Aristóteles. 1ª ed.Edições Loyola: São Paulo, 2006.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. Trad.: Paulo Cezar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
JÚNIOR, O. G. Nietzsche – Para a genealogia da moral. São Paulo: Scipioni, 2001.
BITTENCOURT, R. N. A aflição de uma vida líquida. In: Revista Filosofia Ciência & Vida. São Paulo: Ed. Escala, 2011, n. 28, abr. p. 7-13.
