A imortalidade da alma e seus ecos em nossa época contemporânea

O pensamento filosófico é essencialmente radical e crítico, ou seja, vai à raiz/âmago da questão a ser explorada e estabelece critérios com o intuito de propor ou mesmo postular determinado juízo. Esse compromisso com a verdade, sem influências ou distorções, é sua busca de forma geral. Todavia, nada nem ninguém está livre da ação corrosiva da tradição, afinal, esta vai criando um conforto que é aceito e defendido por todos.

Um exemplo claro desse princípio ocorre ao perguntarmos para pessoas comuns o que lhes vem à mente ao ouvir as palavras “morte”, “espírito” e “alma”. Com certeza, a gama de explicações seria vasta e diversa. O senso comum tem sido doutrinado de diversas formas, com ideias acerca do que esses termos podem significar. É de conhecimento geral que, para muitos, a expressão “morte” pode significar, entre outras coisas, “um rito de passagem”, “um descanso”, “a ida ao Céu ou ao inferno”, “consequência do pecado”, “uma forma de existir sem vida”, etc. Um ouvinte atento perceberá que entre todas as respostas haverá um denominador comum, alicerçado na crença de que o homem possui, de certa forma, uma parte de si imortal.

Ainda sobre a palavra “espírito”, esse denominador comum é mais evidente, pois há movimentos religiosos que exercem sua fé em ritos, demarcando o que seria uma transição entre o chamado plano de existência material e o espiritual. A palavra “espírito” tem sido associada, entre outras coisas, a uma “entidade” ou “fantasma”, ou seja, uma parte da essência que nos faz seres viventes, com liberdade de ir e vir mesmo após a morte. Esse espírito teria uma forma extracorpórea, com a capacidade de voltar a este “plano material”, algo que os kardecistas chamam de reencarnação. É frequente ouvir que “os espíritos dos mortos voltam às suas casas” ou que “nossos entes queridos olham por nós, onde quer que estejam após morrerem”.

Sobre a palavra “alma”, há várias posições. O termo vem do latim anima, do francês âme, do grego psykhé, do hebraico nefesh, do inglês soul e do alemão seele. Em geral, refere-se a todo o aparato que compõe o ser humano, dando-lhe sua identidade como ser pensante e distinto dos outros animais. Em suma, a alma é o que somos enquanto seres viventes e conscientes de nossa própria existência. Por vezes, a ideia de alma e mente se confunde, adotando uma visão holística do ser humano.

A morte está sempre próxima, independente de idade, posição social ou condição econômica. Não importam as vãs tentativas de travesti-la com uma roupagem mais aceitável ou lógica; a morte continua sendo nosso definitivo e, por enquanto, invencível inimigo. A despeito dos floreios e discursos, a morte é uma figura aterrorizante que espreita a experiência de todos. Além de ser repulsiva, ninguém a abraça de modo afetuoso; ela está em toda parte, acontecendo de forma onipresente e incompreensível.

Em diferentes tempos e lugares, a morte e o que resulta no mundo e nas pessoas que ficam têm obtido diversas explicações. A construção do pensamento sobre a vida após a morte é alvo das indagações humanas e uma profunda pesquisa. Não se trata apenas de dizer o que está certo ou errado, ou de avaliar qual posicionamento é mais digno de nota. Mesmo sem certezas, a investigação permanece válida, atraindo toda a energia em busca de conhecimento. Entretanto, trata-se de como a curiosidade e insegurança ante a morte reverberaram na história da humanidade. Em nossa época contemporânea, nossos discursos ecoam milênios de doutrina e produção de conteúdo sobre a morte. Sem dúvida, ela é um elemento estranho à vida. Se fosse “natural”, como respirar, comer ou dormir, não causaria tamanha estranheza e sofrimento quando alguém perde uma pessoa amada. A morte é o tema de profunda indagação e indignação para o nosso intelecto, causando injúria, pois, desde que nascemos, ela é um perigo iminente. Não há quem não a tema, mesmo que em menor grau. A transitoriedade da vida é a mola propulsora do nosso pensar. Talvez por isso, sobre a espécie humana recaia um desejo de vencer o tempo e deixar uma marca na história. Todavia, somos orgânicos e, como tal, obedecemos às leis da entropia.

A fórmula para a vida humana leva-nos a uma concepção holística da natureza do ser humano. A natureza humana, na doença, na saúde, no nascimento ou na morte, não pode ser totalizada em um conjunto de partes, cada uma sendo vista ou tratada separadamente da outra. As expressões contemporâneas, como “doenças psicossomáticas” e “cuidado integral da pessoa”, representam o reconhecimento dessa concepção de natureza humana: o ser humano é um todo único e deve ser tratado como tal.

“É incontestável a interação entre corpo e mente por parte dos profissionais de saúde. Sob sua ótica, a interação entre o psiquismo e a saúde do corpo é clara e facilmente identificável: seja na mãe que, após adotar, consegue conceber uma criança depois de inúmeras tentativas e tratamentos, ou nos fenômenos do aparelho digestório e suas doenças associadas a quadros de ansiedade, depressão e estresse. As somatizações atingem patamares complexos e, por vezes, inexplicáveis, suscitando o interesse e a pesquisa científica. Vale ponderar que a ideia de somatização surge da interação entre psíquico, biológico e social, decorrente de uma situação de tensão que ultrapassa a capacidade do psiquismo de elaborar e simbolizar essa situação emocional, que, por sua vez, permanece aprisionada no corpo.”

Esse conceito, que hoje recebe atenção, nunca foi novidade para o pensamento hebraico. “O hebreu concebia o homem como um corpo animado, e não como uma alma desencarnada” (Robinson, 70). Assim, a palavra hebraica basar (“carne”, Sl 38:3), assim como as palavras soma (“corpo”, Rm 7:24) e sarx (“carne”, Gl 4:13), não retratam uma parte da pessoa — o corpo em oposição à alma —, mas a pessoa de forma inteira, ou seja, completa. Na língua hebraica, existe um termo específico para essa posição: nefesh, que significa “ser, pessoa(s), gente; personalidade, individualidade; vida; alma, desejo, estado de ânimo, sentimento, vontade.” Refere-se à existência de uma pessoa, que termina com a morte. Assim, a alma não tem nenhuma existência sem a vida física, que, por sua vez, não encontra seu norte sem o aspecto social. Sem a vida, não há o que nos torna humanos. A morte não pode separar o corpo (aspecto físico) da alma (nefesh), permitindo que esta continue existindo. Nada da vida sobrevive à morte, visto que esta é um rompimento, uma agressão.

Se fosse verdade que a alma passa diretamente para o Céu na hora da morte, bem poderíamos então ansiar pela morte em lugar da vida. Quando dominados pelas dificuldades, perplexidades e desapontamento, pareceria fácil e até lógico romper o tênue fio da vida e voar além, para “as bênçãos do mundo eterno”. Sobre o pensamento fundamental da imortalidade inerente, repousa a doutrina da consciência na morte, algo impossível de provar e incoerente diante do fato de que o homem é uma unidade social, emocional, espiritual e física. Tudo isso em conjunto atua na formação do intelecto humano e subsequente consciência de si como ser vivente. Quando esse ser é rompido, não há mais um ser a ser levado em conta; sua pessoa e seu fim são irrevogáveis. Basta observar o processo de decomposição do corpo que antes falava, pensava e respirava. Logicamente, a memória humana consegue trazer de volta àqueles que perderam seus entes queridos a sensação de proximidade. Isso basta para aliviar toda a ansiedade decorrente da perda? Não. É necessária a presença física da pessoa (e de tudo o que a compõe) para confortar plenamente.

Essa concepção holística da natureza humana é extremamente importante para os serviços de saúde, os serviços sociais, a educação e outros serviços em prol dos necessitados. Significa que, ao tentar solucionar o problema de alguém, específico ou não, deve-se levar em conta a pessoa como um todo: mente, coração e corpo. Essas desordens emocionais de cada pessoa devem ser tratadas levando em consideração, inclusive, o que ela come, onde dorme e como administra suas relações pessoais, quando um agente de saúde ou um médico visita um paciente. Em resumo, a concepção holística do homem traz novas perspectivas ao diálogo de nossa época sobre questões tão frágeis e críticas da nossa sociedade.

No antigo Egito, monumentos magníficos, alguns de pé até hoje, dedicados aos mortos e práticas funerárias, testificam da preocupação com a morte e da crença na vida após a morte nessa cultura milenar. Isso se reflete em seu panteão de deuses, muitos com relação à morte e à ajuda das almas no caminho de nove dias até o reino eterno. “Quer dizer que tenho de morrer para ter a minha alma completa?” De fato, o paradigma da vida após a morte parece muito atrativo, já que a morte causa muito desconforto. Assim, a crença de que há algo mais após a nossa vida é um importante mecanismo para lidar com o nosso fim. Isso pode ter motivado, ao longo da história, o pensamento e as elaborações culturais e religiosas que permeiam o inconsciente coletivo.

A concepção bíblica de morte, incomum no mundo antigo, foi apenas uma das contribuições para o pensamento ocidental e cristão sobre o assunto. A filosofia grega forneceu a segunda contribuição. Antes do surgimento dos filósofos, no tempo de Homero (9° séc. a.C.), os gregos acreditavam que a morte punha fim à consciência e ao pensamento, deixando apenas uma “existência” incorpórea, obscura e inconsciente (Ilíada, 23:69-107; Odisseia, 11:204-223). Isso pode ser visto em mitos como o de Orfeu, cuja tentativa de resgatar sua esposa do submundo representa essa visão da morte. Contudo, com a chegada dos primeiros filósofos gregos e “cientistas” na Ásia Menor (séc. 7° ao 5° a.C.), surgiram questionamentos sobre a natureza da vida, da realidade e, inevitavelmente, da morte.

Heráclito (c. 544-484 a.C.), por exemplo, concluiu que o fogo constituía a essência última do mundo, e que a alma humana era parte desse fogo. Isso reflete a tendência do intelecto humano de valorizar o que nos torna seres racionais, deixando em segundo plano outros aspectos da existência humana que também são vitais. Assim, a alma, segundo Heráclito, sobreviveria à morte, enquanto o corpo simplesmente assumiria outra forma. De forma semelhante, a ideia de imortalidade também ganhou expressão na pólis grega. Péricles, em seu discurso em homenagem aos que morreram pela cidade, afirma que aqueles que morreram pelos cidadãos deveriam ser lembrados por seus feitos. Nesse caso, a imortalidade não está relacionada a uma alma eterna, mas à participação em uma realidade eterna, seja física (como o fogo universal), seja social (como a cidade).

Na época de Sócrates (470-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.), a imortalidade da alma passou a ser amplamente defendida. No Fédon, que relata as últimas horas da vida de Sócrates, esse filósofo afirma que, com a morte, a alma se liberta do corpo impuro para viver de forma independente, livre da matéria. Para muitos pensadores da época, o corpo era visto como algo frágil e de pouco valor em comparação à alma.

“De fato, você sabe, que quando um indivíduo morre, […] é natural para a parte visível e física dele, que jaz no mundo visível e a que damos o nome de cadáver, decompor-se e desagregar-se e dissolver-se […]. Mas a alma, a parte invisível, que vai para um lugar semelhante a ela, nobre, puro e invisível […]. Se ela é pura no momento de sua libertação e não arrastar consigo nenhuma contaminação corporal, porque nunca se associou voluntariamente com o corpo, mas sempre o evitou, […] ela se dirige para o lugar que com ela se assemelha, para o invisível, divino, imortal e sábio […].”

Essa visão da imortalidade da alma não foi aceita por todos. Aristóteles (384-322 a.C.) questionou a ênfase platônica na existência formal em detrimento da existência individual. Ele apontava que os conceitos abstratos só tinham existência no mundo material. Assim, seria possível falar apenas de uma existência não corpórea da alma, já que apenas Deus é espírito sem corpo. Esse ceticismo foi retomado por escritores como Lucrécio (98-55 a.C.), que afirmou: “A morte, portanto, não é nada para nós, não vale uma partícula, visto que a natureza da mente se supõe mortal […] quando não existirmos mais, quando sobrevier a morte entre o corpo e o espírito que forma em nós um todo, nada absolutamente acontecerá a nós, que nessa ocasião já não existiremos.”

Apesar disso, as ideias de Sócrates e Platão sobre a continuidade da alma após a morte tiveram grande impacto. Seus discursos encontraram eco nas mentes de muitos. O contraste entre a visão grega clássica e o conceito bíblico da morte é profundo. Durante o período medieval, quando a filosofia servia aos interesses da Igreja, essas duas visões se misturaram, dando origem a novas crenças, como o purgatório.

A visão bíblica da morte, como um estado de inconsciência (um “sono”) que aguarda a ressurreição, continuou a ser apoiada pela Igreja primitiva. Inácio de Antioquia, por exemplo, em sua correspondência com Policarpo de Esmirna, defendeu a crença na ressurreição.

Hoje, em nossa época contemporânea, a ideia de “vida após a morte” ainda reverbera como um eco ao longo da história humana. Embora tenha evoluído, essa crença continua a influenciar profundamente a cultura e o pensamento atual.

Robinson, H. W. Inspiration and Revelation in the Old Testament. Toronto: Oxford University Press, 1946.
Beyerlin, W., ed. Near Eastern Religious Texts Relating to the Old Testamet. Philadelphia: Westminster, 1978.

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