Corro o risco de parecer repetitivo, mas alguns pensamentos sempre retornam com força, como uma chuva no molhado. Meus amigos mais próximos sabem do que estou falando. Desde cedo, meu espírito veio a este mundo com uma paixão constante e ardente pelas palavras. Elas aquecem meu coração, levando-me a reflexões profundas e maravilhadas sobre a vida.
Talvez essa paixão tenha nascido da crença de que “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade”. Em Cristo, a misericórdia e a justiça se encontraram, e Deus reconciliou o mundo consigo. Essa ideia, para mim, é de uma beleza indescritível e talvez a mais digna de reflexão — quem sabe, seja por isso que as palavras me fascinam tanto.
Ou talvez minha paixão pelas palavras venha do arquétipo do velho sábio, aquele Dumbledore ou Gandalf da vida, que carrega um conhecimento profundo que nós, meros mortais, ainda não alcançamos. Esses discursos, como os de Clóvis de Barros, ressoam de maneira visceral, catártica, quase mágica. Até o tom de voz nos alcança.
Como disse Dumbledore em As Relíquias da Morte:
“Palavras são, na minha humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e também de remediá-los.”
Essas palavras são tão íntimas, tão poderosas, que podem mover o espírito. E hoje, uma nova palavra se apresentou a mim, quase como uma profecia — não no sentido de predizer o futuro, mas de exortar. A palavra é autocomiseração.
Autocomiseração é, em essência, compaixão por si mesmo. E, de maneira surpreendente, percebi que sim, precisamos sentir compaixão por nós mesmos. Devemos reconhecer nossas fragilidades e limites, cercando-nos de boas decisões. Muitas vezes, afundamos em nós mesmos, presos na areia movediça de nossas angústias. Quanto mais lutamos, mais nos afundamos. Sei que é cansativo.
Mas é aí que a filosofia nos ajuda. Immanuel Kant, em sua obra A Metafísica dos Costumes, nos lembra que nossas ações não devem ser pautadas por relativismos ou circunstâncias externas. Há um imperativo categórico, um princípio racional que nos guia: “Age somente, segundo uma máxima tal, que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal.”
Aplicando essa ideia à autocomiseração, percebemos que reconhecer nossas próprias fragilidades não é um ato de fraqueza, mas um passo ético e necessário. Não se trata de nos vitimizarmos, mas de olharmos para nós mesmos com a mesma clareza e justiça que aplicamos ao julgar o mundo. Afinal, se não pudermos desejar universalmente que todos cuidem de si com compaixão, como podemos agir de forma coerente com essa máxima?
O Rei do Universo, se for verdade tudo o que dizem sobre Ele, jamais criaria um ser sem a capacidade de Sapere Aude — ousar saber, ousar conhecer o mundo que nos é tão íntimo. E ao nos conhecermos, percebemos que agir segundo o imperativo categórico é buscar o que é universalmente correto, mesmo quando esse agir começa com algo aparentemente simples: cuidar de si mesmo.
Tenha compaixão de si mesmo. Se você se ajudar, são quatro forças se movendo em prol de um nobre propósito. Afinal, se o Criador realmente existe, Ele se fez quatro — uma vez que é três — para nos alcançar. Ele se agachou até a nossa altura, tornando-se homem, a Palavra única e verdadeira, aquela que não muda e não tem sombra de variação.
Espero que estas palavras gerem as mesmas impressões que eu senti em meu espírito. Que sejam verdadeiras e sirvam como norte, peneirando e cultivando algo novo em você.
Kant, com sua racionalidade impecável, nos oferece um lembrete: nossas ações, incluindo a autocomiseração, devem ser pautadas por princípios que possamos defender universalmente. Assim, cuidar de si não é egoísmo, mas parte de uma ética maior que constrói o bem coletivo, começando pelo individual.
