O termo “inter” carrega a ideia de atravessar ou conectar, sugerindo um espaço aberto ao encontro. Essa noção, ao longo do tempo, adquiriu múltiplas interpretações. Por exemplo, quando crianças brincam juntas, elas “interagem”, demonstrando uma conexão espontânea. Esse conceito contrasta com o ideal cosmopolita do Império de Alexandre, em que “cosmopolita” designava uma perspectiva universal, relacionada ao mundo habitado. Semelhante a isso, o termo “ecumênico” também engloba uma visão ampla e integradora, mas com foco na unidade dentro da diversidade.
O conceito de religião muitas vezes é associado à ideia de “re-ligare” – a reconexão do ser humano com o divino. Contudo, Cícero, em 45 a.C., usava o termo “relegere” com outro significado: o de “releitura” ou “ler novamente”. Essa distinção é significativa. Aceitar a religião como “re-ligação” pressupõe uma ruptura entre o humano e o divino. Por outro lado, entendê-la como “releitura” sugere um retorno contínuo ao mistério, buscando novos significados. Em tempos de incertezas, a segunda abordagem se revela mais saudável, pois fomenta descobertas e diálogos em vez de divisões.
Quando pensamos no diálogo entre religiões, duas perspectivas emergem. A primeira defende que todas as religiões coexistam pacificamente, cada uma preservando seus ritos e tradições – um conceito que remete ao diálogo inter-religioso. A segunda busca pontos comuns entre diferentes crenças, promovendo conversas que transcendam as diferenças e abram caminhos para novas compreensões. Ambas as abordagens são válidas, mas exigem um olhar atento e empático para que se tornem genuínas.
O conceito biopsicossocial, amplamente discutido na contemporaneidade, nos lembra que o ser humano é uma integração de dimensões biológica, psicológica e social. Um médico, ao tratar um paciente, deve considerar seu contexto de vida: alimentação, relações sociais, estado emocional e crenças. Essa visão holística também deve nortear o diálogo inter-religioso. Em eventos médico-missionários, por exemplo, não importa a crença do profissional ou do paciente – todos compartilham a busca pelo bem-estar físico e emocional. Nesse espaço de empatia, o diálogo se abre de forma natural, colocando o ser humano como prioridade.
Desde 2018, o Brasil acolhe refugiados sírios, majoritariamente muçulmanos. Nesse contexto, é fundamental oferecer moradia, alimentação, educação e apoio humanitário, transcendentemente às diferenças religiosas. O voluntariado, especialmente em tempos de pandemia, deve focar no bem-estar dessas pessoas como indivíduos, sem a intenção de convertê-las ou persuadi-las. Tal postura reflete o respeito que reconhece no outro a mesma dignidade que buscamos para nós.
O artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988 garante a liberdade religiosa. Um diálogo inter-religioso autêntico começa ao enxergar cada ser humano como um fim em si mesmo, portador de direitos e crenças que o tornam único. Como aponta a tradição judaico-cristã, Deus, ao criar a humanidade, destacou que “não é bom que o homem esteja só”, revelando o caráter social e relacional do ser humano. De forma semelhante, a filosofia de Platão e a ética existencialista reforçam a necessidade de interação como parte essencial de nossa construção enquanto indivíduos.
Infelizmente, em minha cidade, ainda vejo preconceito religioso, especialmente entre católicos e evangélicos. Isso soa irônico, considerando que ambas as religiões compartilham como figura central a pessoa de Jesus. Por outro lado, em São Paulo, vivi uma experiência inspiradora durante uma ação na Cracolândia, organizada por uma ONG. Ali, católicos, adventistas e pessoas de outras crenças se uniram para levar sopa a quem mais precisava. Ninguém discutia dogmas ou restrições alimentares; estávamos unidos por algo maior: a empatia e o cuidado com o próximo. Sartre estava certo ao afirmar que “o outro me revela”. Naquele momento, nossas crenças tornaram-se secundárias diante da humanidade que compartilhávamos.
O diálogo inter-religioso é, antes de tudo, um chamado ao reconhecimento do outro. Somente ao enxergarmos o próximo como reflexo de nossa própria humanidade, podemos transcender as barreiras religiosas e nos unir no sublime propósito de viver este intervalo com respeito, solidariedade e significado.
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ECUMÊNICO
¹ETIM gr. oikoumenikós,ḗ,ón ‘do ou aberto para o mundo inteiro’, pelo lat. oecumenĭcus,a,um ‘universal, de todo orbe’
INTER-RELIGIOSO
²Diálogo inter–religioso é a ideia de que as diferentes religiões do mundo devem evitar a busca pela supremacia mundial e, ao invés disso, devem dialogar e se respeitar mutuamente, procurando evitar conflitos com motivação religiosa.
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Emanuel Dias, T.
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REFERÊNCIAS:
¹GOOGLE
²idem.
CALDAS FILHO, C. R. Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante. HORIZONTE – Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 15, n. 45, p. 112-133, 31 mar. 2017. http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2017v15n45p112. Acesso em: 05 mar.21.
ARIGATOU FOUNDATION; INTERFAITH COUNCIL ON ETHICS EDUCATION FOR CHILDREN. Aprender a viver juntos: um programa intercultural e inter-religioso para a educação ética. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000212787. Acesso em: 02 mar.21.
AGÊNCIA ANHANGUERA. Em Jaguariúna homem é vítima de intolerância religiosa. Correio, Campinas, 27 fev. 2020. Disponível em: https://correio.rac.com.br/_conteudo/2020/02/campinas_e_rmc/903573-homem-e-vitima-de-intolerancia-religiosa.html. Acesso em: 25 fev. 2021.
ANDRADE, Joachim. Ecumenismo e diálogo inter-religioso. Curitiba: Contentus, 2020. (Disponível na Biblioteca Pearson)
FLUCK, Marlon Ronald. Diálogo inter-religioso sob a ótica cristã. Curitiba: InterSaberes, 2021. (Disponível na Biblioteca Pearson)
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/intolerancia-religiosa.htm. Acesso em: 25 fev. 2021.
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