DIREITA e ESQUERDA – uma polarização separatista

DIREITA e ESQUERDA – uma polarização separatista

As pessoas, independentemente de sua educação, religião ou idade, têm uma visão política em relação à sociedade, influenciada pelo ambiente ao redor. Cada indivíduo imagina um caminho ideal para si e para a sociedade, buscando o bem comum. Aqui notamos como a esperança é o motor a impulsionar os movimentos sociais, sendo fundamental para justificar esforços em busca de direitos, tal como as marés representam movimentos sociais gerados pela sociedade, miríades de indivíduos, cada um com sua história e aspirações, a sociedade busca um destino melhor para si e para a nação. Thomas Hobbes (2014, p. 118) destaca essa visão como meio de defesa, onde os indivíduos transferem seu direito de governar em troca de proteção, formando assim uma entidade chamada Estado, essencial para a paz e defesa comum. Com isso em mente, há e sempre haverá uma íntima relação entre o indivíduo e a sociedade. Enxergar assim o ser humano e sua comunidade é bem expressado por Châtelet (2000), ao analisar a obra de Aristóteles.

Quando no início de A Política (Livro I, 2:, 1252 a 24-1253 a 37), Aristóteles quer definir a Cidade, ele a opõe a duas outras formas de agrupamento animal: a família, que reúne os indivíduos do mesmo sangue, e a aldeia, que agrupa os vizinhos em função do interesse. Nos dois casos, o objetivo é a sobrevivência. A Cidade, por seu turno, tem como fim o eu Zein o que significa: “Viver como convém que um homem viva”

Ainda nas palavras de Aristóteles (2002)

É, portanto, evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem […] 

A busca por um estado mais justo e honesto, marcado pela igualdade e liberdade, é uma preocupação valiosa para grandes pensadores e filósofos ao longo da história. Considerando o passado que moldou o presente e o olhar para o futuro, essa idealização do estado reflete uma preocupação genuína. Apesar das intensas discussões contemporâneas sobre o tema, é relevante olhar para trás e apreciar as contribuições significativas dessas mentes extraordinárias para o pensamento humano. Ao longo da história, teóricos como Sócrates, Descartes e Marx influenciaram profundamente o pensamento humano com ideais sólidos sobre a sociedade. Suas cosmovisões filosóficas, como “Conhece-te a ti mesmo”, “Penso, logo existo” e “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, continuam a ressoar nas épocas atuais, oferecendo uma perspectiva consistente sobre a natureza humana e a importância da comunidade. Essas ideias, como ondas batendo à praia, proporcionam uma releitura constante da realidade, destacando questões atuais e desatualizadas. Quando a comunidade não protege seus membros e mantém instituições sólidas, podem surgir protestos e revoltas contra formas de governo, buscando a instauração de novas ordens. Cada posicionamento político é único e subjetivo, variando conforme diferentes percepções. A natureza singular desse tema torna a política divisiva, apaixonante e propensa a utopias. A abordagem contemporânea contrasta com a discussão democrática dos antigos gregos sobre o ideal para a polis. 

Assim, o presente texto tem por alvo apontar o olhar redutor que hoje se tem sobre as palavras “esquerda” e “direita”, seus predicados e o que pretendem defender no seu onde e quando de cada uma, essa localização filosófico-histórica entre estes dois pontos, novamente, esquerda e direita, é oportuna para refletirmos sobre o cenário político atual no Brasil, pois “direita” e “esquerda” são reciprocamente excludentes, no sentido de que nenhuma doutrina ou nenhum movimento de parte deles pode ser simultaneamente de direita e de esquerda. Note que a esquerda e direita já nascem excludentes, isto é, já nascem separando-se, o que seria contrário ao pensamento político em sua essência, uma vez que  tem que ver com a união, para o bem estar da polis, o que nos leva a refletir: qual será o fim desta divisão que se impõe diante de nós? Ao comparar a esquerda e a direita sob os prismas axiológico, histórico e descritivo, busca-se oferecer orientação ao senso crítico do leitor para uma compreensão mais autêntica e veraz das diferentes posições. Essa análise visa fornecer fundamentos sólidos para um posicionamento pessoal informado, promovendo discernimento em meio à complexidade das informações contemporâneas, especialmente em um mundo marcado por divisões. Para Angela Davis (DAVIS, 2017, p.53) “a política não se situa no pólo oposto ao de nossas vidas. Desejemos ou não, ela permeia nossa existência insinuando-se nos espaços mais íntimos”. Atualmente, a palavra “política” se afasta de seu significado comum, distanciando-se do contexto partidário e eleitoral. Em meio a diversas expressões, muitos desenvolvem aversão devido às notícias negativas. Contudo, o termo aqui não se refere apenas a partidos, eleições ou ideologias como “conservadorismo” e “progressismo”. Em vez disso, destaca-se o aspecto do modo de viver em sociedade, do bem-estar coletivo e do cuidado com a coisa pública. A realidade grita que, além do coração humano, nada existe exclusivamente para si. A sociedade é comparada a um organismo dinâmico, onde cada indivíduo é uma célula. A visão de Hobbes sobre o Leviatã, um poder formado por pessoas, se assemelha à ideia de Aristóteles de que “o homem é um animal político.” E será no período medieval que essa visão do ser humano começará a delinear o que a Revolução Francesa derrubará, pois até o período medieval, a definição de ser humano como “animal político” foi fundamental para os teóricos ao abordarem a política e sua relação com o cotidiano. Concordar com Aristóteles, que considera o ser humano um “animal político”, implica reconhecer a dependência natural de viver em comunidade. Aristóteles, em “A Política”, compara a sociedade a um organismo, destacando que o ser humano é inerentemente político. Ele vê a comunidade como um meio para a realização das virtudes inerentes à natureza humana, sendo ela mesma um aspecto natural, similar às relações familiares e de coabitação. Política, vista por esse ângulo, refere-se a consenso, administração da coisa pública e principalmente à organização da vida coletiva. A origem da palavra, do grego “polis”, significa “cidade organizada por leis e instituições”. Os gregos e romanos propuseram um poder político, substituindo o patriarcal, onde a ação racional voluntária visa o bem da comunidade ou bem comum. Se a política é intrínseca à humanidade, os termos “esquerda” e “direita” são relativamente recentes na história política, sendo que a política se confunde com a história da humanidade. As posições políticas, sendo particulares, são sustentadas por valores, ideologias e cosmovisões anteriores. É crucial compreender que essas posições revelam as estruturas fundamentais da sociedade. Dada a complexidade contemporânea, é essencial manter a sobriedade em relação às mudanças, respeitando as diversas perspectivas. O questionamento sobre quando e como “esquerda” e “direita” se inseriram na história se torna pertinente diante da multiplicidade de ideias na sociedade atual. O Iluminismo, movimento filosófico dos séculos XVII e XVIII liderado por Descartes, Voltaire, Rousseau e Paine, promoveu correntes como o racionalismo, destacando a razão na busca pela verdade. Na Revolução Francesa, contestou o antigo regime e a influência da Igreja Católica. A Deusa da Razão emergiu como símbolo de liberdade religiosa. Thomas Paine, com “The Age of Reason,” influenciou como uma “Bíblia” iluminista, proclamando a mente como sua própria igreja. Esse contexto insatisfez a população francesa, precipitando reformas. A Revolução Francesa, ocorrida em meados de 1790, foi um marco na história, moldando a sociedade contemporânea. Com ideais de igualdade e liberdade, seus efeitos continuam presentes, influenciando a política e a ideologia. Como destacado por Hobsbawm (2010, p.97, 98), essa revolução fundamentalmente moldou a política e a ideologia do século 19, impactando nossa visão e compreensão da sociedade atual. Em 1790, a França tinha três estados: Clero, Monarquia e Povo. O terceiro, composto por trabalhadores e burguesia, representava 97% da população e sofria com tributações injustas e fome. Crises aumentaram a pressão na classe menos favorecida. Em 1787, o Rei Luís XVI convocou a Assembleia dos Notáveis, excluindo o terceiro estado. A solução de aumentar impostos falhou, levando à convocação de uma nova Assembleia, com a presença dos três estados. Em 1788, Luís XVI convocou os estados gerais para enfrentar a crise francesa. A assembleia tornou-se uma Assembleia Nacional Constituinte, debatendo questões como o poder de veto do rei. Afinal, quais eram os limites do poder do rei? Durante a Assembleia Nacional Constituinte, dois grupos se formaram. Os girondinos, à direita, buscavam mudanças mais lentas, apoiavam o rei e a monarquia, resistindo a alterações abruptas. Já os jacobinos, à esquerda, buscavam limitar o poder do rei e, se possível, abolir a monarquia, defendendo mudanças radicais e rápidas na sociedade francesa, se possível fosse eles poriam fim na figura de um rei naquele momento. Desde então, associamos “direita” a conservadores, defensores da manutenção do status quo, e “esquerda” a progressistas, que buscam transformações. Note que as palavras “esquerda” e “direita” são expressões posicionais, indicando a relação de alguém a outros. Elas são genéricas e podem variar em intensidade. Por exemplo, alguém de direita pode ser de centro-direita em comparação com outro mais radical, perceba a limitação desses rótulos. As categorias não abrangem completamente os sentidos que os lados defendem, já que uma pessoa pode ser de esquerda em relação ao progresso econômico, mas conservadora em relação aos costumes. Um exemplo, ironico e eloquente é o de Marie Gouze (Olympe de Gouges), uma ativista feminista e abolicionista, defendeu a inclusão das mulheres na Assembleia Nacional Constituinte, apesar de ser alinhada aos jacobinos (esquerda). Sua guilhotinação pelos próprios jacobinos destaca a fluidez desses termos políticos. Conceitos como esquerda e direita são genéricos e podem mudar ao longo do tempo e em diferentes contextos, limitando a riqueza da discussão política.

“O homem de direita é aquele que se preocupa, acima de tudo, em salvaguardar a tradição, o homem de esquerda, ao contrário, é aquele que pretende, acima de qualquer outra coisa, libertar seus semelhantes das cadeias a eles impostas pelos privilégios de raça, casta, classe etc.” (Bobbio, 1994, p.97)

Edmund Burke (1729-1797), um filósofo irlandês, expressou suas opiniões sobre a Revolução Francesa em 1790. Com uma perspectiva notavelmente conservadora, ele desconfiava de movimentos que causavam agitação global, argumentando contra a crença na aperfeiçoabilidade humana. Para Burke, a busca por um paraíso prometido pelas leis dos homens era um sonho distante, potencialmente resultando em mais dor para a sociedade. Evitar promessas utópicas, segundo ele, era mais sensato do que tentar concretizá-las. Esse pensador estabeleceu as bases para as ideias que a direita tentará defender, argumentando que as desigualdades são inevitáveis e que o papel do estado não é criar um paraíso, mas evitar o inferno. Ele destaca a importância do passado, que nos trouxe até o presente, e atribui responsabilidades para o futuro, vendo a sociedade como um compromisso não apenas entre as pessoas do presente, mas também com os ancestrais e descendentes. Burke, fundador do conservadorismo, opõe-se a rupturas que desconsiderem o passado, enfatizando o compromisso com as gerações futuras. Para ele, conservar o melhor do passado e reformar o que está ruim é essencial para construir algo melhor.

CONTRASTES ENTRE DIREITA E ESQUERDA

A origem histórica dos termos direita e esquerda remonta ao posicionamento de grupos em um salão na França em 1789, um acidente geográfico gerando desavenças políticas até hoje. Embora ainda sejam utilizados no debate político partidário e midiático, esses rótulos têm validade conotativa, apenas localizando a postura, sem definir completamente o indivíduo. Esquerda e direita significam a mesma coisa em todos os países? Se existem “apenas” elas duas, porque há então tantos partidos políticos? Vários filósofos e teóricos políticos estudaram profundamente a sociedade, suas organizações políticas, ideologias e formas de governo. No entanto, o termo “Ciência Política” só foi cunhado por Herbert Baxter Adamn em 1880. A sociedade é um campo de disputas que busca impor diferentes visões de mundo e representatividade social (Bourdieu, 1989). A realidade se transforma dinamicamente, seguindo os princípios da dialética, mas muitas vezes não atinge o ideal esperado. É crucial compreender que ao depositar esperança em outras pessoas, sem construir convicções próprias, a postura política do indivíduo se enfraquece, não a sustentando em face da sociedade. Após o Iluminismo e a Revolução Francesa, surgiram diversas ideologias, e os termos direita e esquerda passaram a orientar essas ideias ao longo do tempo, indo além da simples distinção entre manter ou mudar as coisas. À medida que as sociedades se tornaram mais complexas, filósofos começaram a criar modelos ideais de governo, influenciando as práticas políticas adotadas. No contexto dos países capitalistas, as diferenças entre liberalismo e socialismo passaram a definir as concepções de direita e esquerda. O cenário político ampliou-se devido à complexidade crescente da sociedade, resultando no surgimento de novos termos e preocupações. No que tange às desigualdades sociais, a díade “esquerda-direita” deixa evidente como cada uma pensa e propõe suas ações políticas. Neste sentido, imagine uma linha reta. Numa ponta temos a esquerda, na outra a direita. Segundo Souza (2014), as disputas em torno da questão da desigualdade, que transforma cerca de 30% da população em excluídos sociais, é, assim, a base dos atuais conflitos sociais no Brasil. O italiano e filósofo político da segunda metade do séc. XX tem um honesto olhar sobre a desigualdade, para ele a desigualdade se dá quando “aquele que tende a colocar em evidência não aquilo que os homens têm em comum, mas aquilo que têm de diferentes, enquanto indivíduos” (Bobbio, 1994, p.40). Bobbio vai diferenciar a direita da esquerda, tendo como valor referencial o da igualdade, que é “a diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal da igualdade” (Bobbio, 1995. p.95), ele também entende que ‘direita’ e ‘esquerda’ não são conceitos absolutos, são conceitos relativos. Não são palavras que designam conteúdos fixados de uma vez para sempre. O fato de direita e esquerda representarem uma oposição quer simplesmente dizer que não se pode ser simultaneamente de direita e de esquerda. Já o pensador contemporâneo, Roger Scruton, expoente do conservadorismo e referência teórica da nova direita brasileira, observará a questão da desigualdade social como algo natural, veja:

Não é suficiente enfatizar o fato da necessidade humana, que nos estimula a vender mesmo o que nos é mais caro – nosso trabalho – para o precioso benefício da sobrevivência. Sem necessidade não haveria motivo algum para produção, e sem uma desigualdade fundamental entre as partes – cada uma das quais quer o que a outra oferece – nenhum contrato poderia ser livremente acertado. SCRUTON (2014, p. 215)

E ele acrescenta: 

O entendimento do indivíduo humano como artefato social demonstra que a desigualdade é natural, que o poder faz parte de um bem complexo e que as restrições são um ingrediente necessário da única liberdade que podemos valorizar. SCRUTON (2019, p. 72)

Aqui se torna crucial corrigir um equívoco frequente: moralizar uma posição política em detrimento da outra. A abordagem de Scruton em relação à desigualdade enriquece o debate ao reconhecer a desigualdade como uma realidade persistente, difícil de erradicar. Isso implica em manter um olhar realista sobre o tema, admitindo que, independentemente do contexto político, período ou circunstância, as desigualdades sociais e de oportunidades sempre existirão. Contudo, diante dessas definições, é plenamente possível compreender a direita como não sendo interessada nas desigualdades, e enxergar a esquerda como melhor por se preocupar com esse problema. Todavia, a direita, com seu olhar sóbrio sobre a realidade, evitará promessas de uma sociedade utópica, e lidará com os problemas com as dimensões que eles têm, pois, o Estado agindo para erradicar as desigualdades pode gerar mais delas. Bobbio chega a concordar, mas insiste na postura de que a esquerda é mais igualitária que a direita, veja:

Disso decorre que quando se atribui a esquerda uma maior sensibilidade para diminuir as desigualdades não se deseja dizer que ela pretende eliminar todas as desigualdades ou que a direita pretende conservá-las todas, mas no máximo que a primeira é mais igualitária e a segunda é mais igualitária. (BOBBIO, 1995, p. 103)

Bobbio abordava as distinções entre esquerda e direita com base na busca por igualdade e liberdade. Ele identificava na esquerda a defesa contínua da igualdade entre os membros da sociedade, ao passo que via na direita a defesa constante da liberdade, priorizando-a sobre a igualdade. Ele dirá:

Apesar de tudo, uma das poucas coisas que aprendi na história e da meditação através de livros com homens de todos os tempos é que uma das maiores linhas de divisão entre os homens, em sua atitude para com seus semelhantes, é a que ocorre entre igualitários e não igualitários, ou seja, entre os que crêem que os homens são iguais entre si, apesar das diferenças, e os que crêem que são desiguais, apesar das semelhanças; ou ainda entre os que acham injustas as desigualdades sociais porque os homens são mais iguais que desiguais e os que pensam que todo processo de encurtamento das distâncias entre classes e categorias não se justifica por serem os homens mais desiguais que iguais. (BOBBIO 1994, p. 39, 40)

O equívoco neste caso, ao moralizar essa análise, reside em pensar que a esquerda não valoriza as liberdades individuais, podendo apoiar projetos autoritários para alcançar a igualdade. Sob essa perspectiva, seria a direita moralmente superior à esquerda? Assim como fizemos anteriormente, ao inverter a lógica no exemplo da igualdade, podemos aplicar o mesmo raciocínio aqui. A esquerda argumentará que não é possível ter plena liberdade de oportunidades quando há pessoas sem acesso a alimentos ou moradia, por exemplo. Se nos embasarmos apenas nesses dois aspectos, seria fácil nos posicionarmos. Se você quer liberdade, é de direita, se igualdade, esquerda. Todavia, uma sociedade em tranformação precisa de “uma democracia que tolera desigualdades pode cumprir os requisitos da legalidade, mas jamais será uma ordem legítima” (Nobre, 2013, p.126). Moralizar a política é um equívoco, classificar pessoas como moralmente superiores ou inferiores por suas visões políticas é um erro. Durante as eleições de 2022 no Brasil, houve uma intolerância significativa, com rótulos como “comunista” para a esquerda e “ditador” para a direita, simplificando e ignorando a complexidade das posições políticas. Esquerda e direita, apesar de genéricas, refletem diferentes perspectivas sobre liberdade e igualdade, servindo apenas como meios de localização no atual cenário político. Tratarmos deste tema é de vital importância. Falar apenas em direita e esquerda é reducionista, afinal aponta um lado quando na verdade precisamos de um rumo. Não quero aqui encerrar o assunto, ou esgotá-lo por completo, tão empreitada seria impossível, o objetivo é evidenciar o quão rasas são as palavras direita e esquerda dentro do cenário político contemporâneo. Algumas pessoas se identificam como liberais na economia, mas conservadoras em costumes e pautas sociais. Da mesma forma, há aqueles que defendem fortemente causas sociais, mas também apoiam o livre mercado. Isso revela a diversidade dentro da esquerda e direita, evidenciando o pluralismo político e o direito de qualquer grupo expressar suas opiniões sem distinção de crenças, raças, classe social, etc. direito este, garantido pela nossa constituição. O espaço público, segundo Aristóteles, é onde o ser humano deve desenvolver suas habilidades para se tornar a melhor versão de si mesmo. Nesse contexto, a sociedade deve auxiliá-lo, promovendo uma relação intercambiável na qual a democracia opera por meio do diálogo e consenso da população. A filosofia busca estabelecer critérios e expor incoerências para alcançar uma compreensão mais profunda dessas dinâmicas. De tudo, uma coisa é certeza: todos compartilham uma característica comum, a esperança. Essa força persistente tenta superar até a morte, mesmo nas circunstâncias mais adversas. A esperança guia as ações humanas, mesmo que pareçam confusas ou adotem valores não reconhecidos por outros. Todos, ao possuírem esperança, voltam-se para o futuro em busca do que consideram um “futuro ideal”. Nesse sentido, somos todos semelhantes, pois compartilhamos a compreensão do que desejamos e podemos ajustar nossas aspirações à evolução constante da sociedade. Usando uma analogia, o debate político é como uma caixa de bombons: não é necessário consumir todos; podemos escolher aqueles que mais gostamos e nos identificamos. É fundamental que existam oposições em relação a posições e opiniões políticas, pois isso garante a liberdade de expressão. Contudo, é crucial não desconsiderar a tolerância mútua. Devemos evitar transformar as pessoas em espantalhos, não considerando nossos vizinhos, irmãos, membros da comunidade religiosa ou compatriotas como inimigos devido às suas posições políticas. Cada indivíduo, independentemente de seus posicionamentos políticos, deve ser visto como alguém com liberdade de pensamento, com o pleno direito de interpretar a realidade conforme sua própria perspectiva, e pode mudar essa interpretação quando desejar.

Podemos discordar de nossos vizinhos sobre o aborto, mas concordar com eles sobre o sistema de saúde; podemos não gostar das opiniões de um outro vizinho sobre imigração, mas concordar com ele sobre a necessidade de aumentar o salário mínimo. (LEVITSKY e ZIBLATT, 2018, p. 242)

Respeito, tolerância e buscar aprofundamento nos debates políticos, é um bom caminho para tomarmos o outro como igual, e não inimigo. Nosso mundo está atormentado por separações, e cabe a filosofia, ao diálogo e a democracia, por um fim nesta ruptura que se impôs em nossa sociedade brasileira.

REFERÊNCIAS 

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HOBBES, T. O Leviatã. Tradução de Rosilda D’Angina. São Paulo: Martin Claret, 2014 

DAVIS, A. Mulheres, Cultura e Política. 1 ed.São Paulo: Boitempo, 2017 

NOBRE, M. Imobilismo em movimento. São Paulo: Cia das Letras, 2013. 

SOUZA, J. A cegueira do debate brasileiro sobre as classes sociais. Interesse Nacional, vol. 7, p.35-47, 2014. 

BOBBIO, N. As ideologias e o poder em crise. 3º edição. Brasília: Universidade de Brasília. 1994 

_________. Direita e Esquerda. Razões e Significados de uma Distinção Política. São Paulo: Editora UNESP 1995 

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Fim de Século Edições, 1989. 

GIDDENS, A. As Consequências da Modernidade. Celta Editora, 2000. 

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LEVITSKY, S.; ZIBLATT, D. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

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