Desafios nunca foram fáceis. Digo “nunca” porque, quando recebemos um desafio, ele nos traz, no mínimo, desconforto. Faz parte da natureza dos desafios tirar-nos da zona de conforto. E, assim, eles seguem, permeando nossa rotina.
Aprendemos a andar de bicicleta porque nos auto-desafiamos. Talvez você não lembre, mas até para dar os primeiros passos, você se desafiou. Até mesmo aprender a nadar pode ter sido fruto de um desafio, como aquele primo insistente que nos provocava para ver quanto tempo conseguíamos ficar debaixo d’água.
Mas, de todos os desafios, viver é, sem sombra de dúvidas, o maior. Por quê? Porque a todo momento — talvez até agora, enquanto você lê — somos tentados a desistir. Viver nos coloca diante de escolhas difíceis e momentos em que parece mais fácil abandonar a jornada.
Lembro-me de uma fala marcante do Dr. Dráuzio Varella em um documentário da BBC, The Living Body (A Viagem Fantástica). O filme detalha o corpo humano, da fecundação ao fim da vida. Durante o nascimento de um bebê, o narrador, em meio a lágrimas, sangue e tensão, diz: “Pronto! De agora em diante estamos por conta própria.” A frase ressoa profundamente: a partir do momento em que nascemos, encaramos a vida sozinhos.
A cada instante, estamos nos deteriorando, morrendo aos poucos. Isso torna o tempo o bem mais precioso que temos. Começo a perceber que valorizar o tempo é crucial, embora seja um exercício contínuo.
Nesse contexto, o pensamento de São Tomás de Aquino nos oferece uma perspectiva esperançosa. Em sua busca por explicar o movimento e a existência, Aquino apresentou a ideia do Primeiro Motor. Para ele, tudo o que existe e se move no mundo precisa de algo que o tenha impulsionado — um motor que dê início ao movimento, mas que não é movido por nada além de si mesmo. Esse motor, segundo Aquino, é Deus.
De maneira semelhante, os desafios que enfrentamos são movimentos em nossa vida, e cada decisão que tomamos para enfrentá-los é como um pequeno motor que nos move adiante. Assim como Aquino argumentou que o movimento não acontece sem uma causa, também nós só conseguimos encarar os desafios porque algo — talvez um sonho, um desejo, ou mesmo uma fé inabalável — nos impulsiona.
No entanto, existe uma triste verdade: se a vida é apenas um grande desafio, cedo ou tarde, seremos forçados a desistir, porque a morte é a parte inevitável da existência. Mas a ideia de Tomás de Aquino nos lembra que há um propósito maior, um Primeiro Motor que guia tudo. Entre o primeiro desafio — o nascer — e o último, a única coisa que realmente importa, que nos marca, é a nossa força de vontade.
Desafios mexem com a nossa alma. E não devemos tratá-los como algo que podemos “perder”, pois o potencial humano nunca deve ser subestimado. Quando realmente queremos algo com todas as nossas forças, podemos tornar esse desejo uma realidade.
E talvez seja nesse ato de não desistir, de seguir em frente movidos por algo maior do que nós mesmos, que nos conectamos com o Primeiro Motor que Tomás de Aquino descreveu — uma força que nos impulsiona a transformar a potência de quem somos no ato de quem podemos ser.
