Existe o mundo. Estamos destinados a percebê-lo, quase como uma obrigação. Escrevi “quase” porque alguns podem considerar essa tarefa intolerável, ao ponto de quererem abandonar a vida e, assim, se apagarem deste mundo. No entanto, o mundo permanece, indiferente à nossa percepção.
Essa incumbência de perceber o mundo é uma experiência complexa. Pense nas vezes em que, na infância, raspamos o cotovelo no cimento. A dor que sentimos ao atritar essa parte sensível do corpo com o chão nos faz contorcer o rosto. Perceber o mundo é se submeter a ele, e muitas vezes ele nos é hostil; a natureza, afinal, é a maior assassina em massa que conhecemos.
Se somos capazes de perceber a dor, por que também somos capazes de sorrir? Ninguém sorri diante da dor, mas sim diante de algo que nos proporciona prazer. Assim como nossa língua distingue sabores doces, amargos, salgados e azedos, há algo no mundo que provoca essas sensações. Da mesma forma, sabemos o gosto do maracujá porque o maracujá existe.
René Descartes nos ajudou a entender que existem duas realidades: a que pensa (res cogitans) e a que tem extensão (res extensa). A res extensa é tudo o que existe fora de nossa mente, aquilo que tem largura, altura e profundidade. O mundo que percebemos, portanto, é a res extensa.
Contudo, toda a informação que obtemos desse mundo passa pelos filtros dos nossos sentidos: tato, olfato, paladar, audição e visão. Isso é óbvio (e o óbvio, às vezes, precisa ser lembrado). Neste exato momento, enquanto escrevo, é noite, e o Brasil está empatando com a Colômbia nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2022. Eu ouço os carros passando na rua, alguns com som tão alto que fazem as janelas tremerem. Acabei de comer uma geleia de amoras que colhi na casa de uma amiga querida. Tudo isso é o mundo sendo sentido, mas filtrado pelos meus sentidos.
A informação pura, nua e crua, não me é acessível. O gosto da amora em meu paladar é uma interpretação do meu cérebro, mas a amora em si, o que ela realmente é, eu não conheço. Ela foi interpretada, não vivenciada em sua essência. Assim, existe a amora (res extensa) e existe o espírito humano, que pensa (res cogitans). Este, meus amigos, é profundamente incrível, e o limite para explicá-lo é a palavra “imensidão”.
O Conhecimento Intuitivo e Demonstrativo
Esse contraste entre o que percebemos e o que interpretamos revela dois tipos de conhecimento: o intuitivo e o demonstrativo. O conhecimento intuitivo é imediato e não depende de conceitos previamente estabelecidos. Ele pode ser empírico, quando usamos nossos sentidos para compreender algo, ou intelectual, quando compreendemos sem um encadeamento lógico explícito. Por outro lado, o conhecimento demonstrativo é discursivo, baseado no encadeamento de ideias, conceitos e juízos. Aqui, a linguagem desempenha um papel essencial, diferente do conhecimento intuitivo, que ocorre pela experiência direta.
Dessa forma, o ato de perceber e interpretar o mundo já é um exemplo de como ambos os tipos de conhecimento se entrelaçam. Observamos o mundo por meio dos sentidos e, ao mesmo tempo, buscamos compreender algo além do que está diante de nós, por meio de nossas ideias e juízos.
Os Limites do Conhecimento e a Imensidão da Realidade
Será que ao ser humano foi dada a missão de contemplar um mundo que nunca será completamente acessível ao seu intelecto? Há limites para o conhecimento humano? Talvez sim. Nosso olho é uma ferramenta que capta as informações, um filtro. Diante desse filtro, desdobra-se o tecido da realidade. Quando olhamos através de um telescópio, vemos galáxias, e ficamos assombrados com a imensidão.
Kant, em sua reflexão sobre o conhecimento e a moral, também nos leva a questionar os limites de nossa compreensão. Ele diferencia entre o que podemos conhecer através da experiência sensorial e o que transcende os sentidos: a razão pura, que nos guia para verdades universais. Para Kant, o conhecimento humano está intrinsecamente vinculado à interpretação, mas é a razão que nos permite alcançar conceitos universais, como o imperativo categórico.
Se há algo que devemos tirar dessas reflexões, é a ideia de que talvez nunca compreenderemos plenamente tudo o que o mundo nos oferece. Contudo, essa incompletude não invalida a vida; pelo contrário, torna-a ainda mais fascinante.
De maneira assombrosamente maravilhosa, estamos destinados a deixar o mundo passar por nós, a nos permitir ser tocados por ele. Como Kant nos ensina, o uso da razão nos convida a ir além da experiência sensorial imediata, enquanto o conhecimento intuitivo nos conecta ao que é mais imediato e visceral.
Deixe o mundo te diluir; talvez haja cura no fim desse permitir. E talvez, nesse diluir, você encontre não só o mundo, mas também um pouco mais de si mesmo.
