QUÃO NECESSÁRIA É A FILOSOFIA?

A utilidade da filosofia tem sido frequentemente questionada. Para muitos, ela parece um luxo intelectual sem aplicação prática. Contudo, como afirmou a filósofa Marina Garcés: “A filosofia não é útil ou inútil. Ela é necessária”. Mais do que uma ferramenta, a filosofia é uma linguagem essencial para aprender a pensar de forma crítica e reflexiva.

Ainda assim, é comum que seja vista como algo distante da realidade, um passatempo comparável a jogar xadrez ou resolver palavras cruzadas. “Nunca vou me encontrar em uma situação onde precise duvidar se o mundo existe, como Descartes”, diriam alguns. Porém, a reflexão filosófica vai muito além dessas questões. Ela transforma nossa percepção do mundo e molda a maneira como interagimos com ele, influenciando desde nossas decisões cotidianas até como enfrentamos os grandes dilemas da existência. A filosofia permeia nossas ações e escolhas, mesmo quando não percebemos.

1. Como posso ajudar mais pessoas?

Considere a decisão de doar 10 reais para uma ONG. Para onde direcionar sua ajuda? Deveria optar por uma organização reconhecida ou por uma que atua em catástrofes? A corrente filosófica do “altruísmo eficaz” oferece um olhar prático sobre essas questões. Peter Singer, filósofo australiano, argumenta que em regiões de extrema pobreza, pequenas doações podem ter um impacto significativo. William MacAskill, em Doing Good Better, nos convida a pensar: a ONG escolhida trabalha em áreas realmente necessitadas? Há evidências de que suas ações fazem diferença? Essas reflexões nos levam a questionar a verdadeira eficácia de nossas escolhas altruístas.

2. Devo participar de polêmicas no Twitter?

Imagine que, após doar, você se depara com uma discussão acalorada nas redes sociais que desperta sua raiva. Responder ou ignorar? O filósofo Derek Parfit introduziu o conceito de “torturadores inofensivos”, usado por Paul Bloom e Matthew Jordan para explicar como ações individuais, aparentemente inofensivas, podem causar danos coletivos. Cada comentário impulsivo pode parecer irrelevante, mas somado a outros, alimenta um ciclo de hostilidade. Decidir participar ou não de polêmicas online é, portanto, uma questão filosófica: qual impacto nossas ações têm no coletivo?

3. Em quem posso votar?

Decisões eleitorais são um exemplo claro de escolhas com implicações éticas e sociais. John Rawls, em Uma Teoria da Justiça, nos propõe imaginar um “véu da ignorância”, onde não sabemos qual será nossa posição na sociedade. Isso nos levaria a escolher um modelo que beneficie os menos favorecidos, garantindo justiça e liberdades iguais. Em contrapartida, Robert Nozick, em Anarquia, Estado e Utopia, enfatiza a liberdade individual, argumentando que a justiça está na criação, e não na redistribuição, da riqueza. Ambas as perspectivas nos convidam a refletir sobre os princípios que norteiam nossas escolhas políticas.

4. Como devo encarar a morte?

No fundo, todas essas questões convergem em um ponto comum: a finitude da vida. O medo da morte, tão universal quanto antigo, tem sido objeto de reflexão para filósofos como Schopenhauer e Epicuro. Schopenhauer destaca a ansiedade existencial gerada pelo vazio que a morte representa. Epicuro, por outro lado, afirma que a morte não deve ser temida, pois, quando chega, já não estamos lá para senti-la. Bernard Williams, filósofo britânico, questiona a própria ideia de imortalidade, argumentando que, sem a urgência do fim, a vida perderia seu sentido. A consciência da morte, portanto, nos instiga a viver com mais intensidade e propósito.


A filosofia nos ensina a perguntar, a questionar e a refletir sobre o que significa viver. Longe de ser um passatempo ou um luxo intelectual, ela nos ajuda a enfrentar os dilemas da existência com coragem, clareza e humanidade. Afinal, como podemos viver este intervalo chamado vida sem tentar entendê-lo?

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Toda a existência humana, a sua e a minha, é um intervalo entre duas eternidades, um “momento” um “instante” entre elas – tal qual a névoa que se esvai. Sim, antes de nascermos uma eternidade aconteceu, e da qual não fizemos parte, quando viermos a morrer, outra eternidade terá início, da qual não faremos parte.