As datas comemorativas têm um poder especial sobre nós. Talvez a primeira delas, a mais importante, ou pelo menos a mais impactante, seja a do nosso nascimento. Basta ela se repetir para que seja motivo de grande alegria. O Natal, por sua vez, é uma época em que o espírito humano se abre para a vida de uma forma que deveria ser vista ao longo de todo o ano. Nesse período, o melhor aspecto da humanidade se revela, mostrando que nada, absolutamente nada, vive para si mesmo.
Não posso deixar de mencionar o primeiro de janeiro, chamado “Confraternização Universal”. Neste dia, nós, seres humanos, pensadores conscientes de nossa própria existência, olhamos para o céu estrelado que emudece nossa arrogância e celebramos um ciclo de aproximadamente 365 dias. É o período em que nosso pequeno planeta azul, como a Voyager 1 capturou em sua famosa foto, “Pálido Ponto Azul”, orbitou o Sol, transladando-se pelo espaço, cheio de vida e diversidade.
Datas e dias recebem seu marco pelos astros e eventos que deixam marcas profundas em nós. Esses marcos provocam reflexões e nos deixam mudos diante do assombro que o existir nos causa. Eles nos obrigam a sentir e enfrentar as experiências intensas que acontecem neste mundo, muitas vezes exigindo força interior para lidar com tudo.
Por mais belas e nobres que essas datas sejam, elas evocam um sentimento curioso em nossas mentes, e é sobre isso que quero falar aqui. Preciso ser sincero: acredito que há algo errado com este mundo, ou com o kosmos, como os gregos pré-socráticos chamavam o mundo ordenado. Há algo que apenas nosso espírito nota, algo que parece estar fora do lugar. No fundo, temos em nosso coração uma vontade de algo mais, algo que perdure, algo que não tenha fim. No entanto, a vida, como ela é, parece nos confrontar com a realidade de que tudo tem um fim.
Essa falta está sempre presente. É como um quebra-cabeça quase perfeito, mas com uma peça faltando. Nosso peito parece capaz de abrigar o mundo inteiro, mas, no final, tudo acaba. Há um vazio ali, e o observador atento pode percebê-lo, classificá-lo, enumerá-lo. Tenho certeza de que você sabe do que estou falando.
Digo tudo isso para chegar à questão da morte. Assim como o nascimento, a morte é uma data muito importante, e não seria o “Melhor Intervalo” se não falássemos sobre esse nosso último inimigo. A morte, ao meu ver, está em toda parte, onipresente sob este céu. Ela se manifesta a todo momento, e precisamos reconhecer o fato de que ela é a única ferramenta necessária para que a vida continue. Quero me ater a ela, ao peso que essa palavra carrega, especialmente em um dia dedicado a lembrar daqueles que já não estão entre nós.
A morte é antinatural. Se fosse tão natural quanto andar sobre dois pés, respirar ou sentir o sabor doce de uma fruta, não a encararíamos como uma afronta. Uma mãe se despediria de seu filho no leito de morte sem dor, sem tristeza, sem sentir que seu mundo está desabando. Trataríamos a despedida com a mesma indiferença que um animal demonstra quando perde um dos seus, sem perceber que ele nunca mais estará em seus braços. Mas não é assim que sentimos. A perda nos deixa um vazio, uma dor insuportável.
Ontem, ouvi alguém dizer que sentimos isso porque somos egoístas. Preciso dizer que essa pessoa estava completamente errada. Um casal que perde um filho para uma bala perdida, vendo seu pequeno de seis anos em um caixão branco no Rio de Janeiro, só quer o filho de volta. Isso não é egoísmo; é amor. Outra pessoa disse que “se Deus levou, então é porque chegou a hora”. Desculpe-me, mas um Deus assim, que age como um psicopata, eu jamais conheci. Não o adoraria, nem o respeitaria, e, se Ele realmente fosse assim, eu desejaria que Ele se danasse.
Acredito que o livro da natureza é um dos melhores instrumentos para entendermos o Autor da Vida. Deus, o onibenevolente, não trata a vida humana como uma peça de comédia. Acredito em um Deus criador, mas também em um Deus que doa vida e liberdade a todos os que nEle crêem. E ao que parece, Ele enviou Seu Filho para morrer numa cruz por nós. Veja, o Deus da Vida Se lançou à morte, esvaziou-Se de Si mesmo para vencê-la. Se Ele age assim, é porque Ele não lida com nossa vida de forma leviana. E vou além: acredito que Deus não é todo-poderoso. Ora, Ele não pode obrigar ninguém a fazer algo contra sua vontade, nem pode voltar atrás em Sua palavra. Se pudesse, Ele já teria eliminado essa falha na realidade – mas, espere, Ele prometeu que consertaria tudo!
Em Cristo Jesus, na pessoa de Seu Filho que venceu a morte, encontramos a esperança. Deus em Cristo consertou tudo. É a única coisa que importa, a única esperança a que podemos nos agarrar, porque o universo é indiferente à nossa dor. Aqui, tudo é vazio, uma névoa de névoa. Até Fernando Pessoa, o famoso poeta português, disse certa vez: “Fera sadia… um cadáver adiado que procria”. Não dá para viver assim, então tudo é horrível mesmo, mas o que fazer com palavras como eternidade, felicidade, viver para sempre, amor, bondade, vida em abundância, infinito, perfeito… quando nada disso existe sob este céu?
Mas, e se nossa angústia diante da morte, diante do vazio, for um reflexo da liberdade que possuímos? Jean-Paul Sartre, ao nos lembrar de que a existência precede a essência, sugere que somos mais do que um corpo que nasce e morre. Ele afirma que somos seres livres, responsáveis por nossas escolhas, e que essa liberdade, embora nos pareça aterradora, é o que nos define como seres humanos. Não há nada que nos determine previamente. Estamos sempre, à nossa maneira, “para si”, conscientes de nossa própria existência e, com isso, da nossa finitude. Mas também podemos ser “para o outro”, reconhecendo nossa liberdade e a dos outros, entendendo que, assim como nós, os outros também buscam sentido em meio ao caos.
Se vivemos em um mundo onde o sofrimento é inevitável, como podemos agir diante dele? Sartre nos ensina que a liberdade não é apenas um fardo individual, mas uma responsabilidade que se estende à sociedade. Devemos, portanto, agir de forma a permitir que os outros também sejam livres, a lutar contra as condições que os aprisionam. Esse é o ponto central da filosofia existencialista: a liberdade é a chave, mas ela exige ação, exige coragem de transformar a realidade que nos cerca, sem ilusões de perfeição.
Imagino um mundo onde a liberdade não seja uma imposição solitária, mas um caminho compartilhado, onde a vida seja entendida como uma busca incessante por significado e não apenas por respostas prontas. Um lugar onde a morte não seja o fim, mas parte de um ciclo contínuo de liberdade, onde nossos atos e escolhas reverberem por toda a eternidade. Até lá, devemos, como Sartre nos orienta, ser responsáveis por nossas vidas, não apenas por nós mesmos, mas por todos ao nosso redor.
Pense: se eu sinto o gosto de uma framboesa, é de esperar que haja framboesas no mundo. Se conheço o cheiro de uma rosa, é de esperar que existam rosas. Da mesma forma, se faz sentido andarmos, propagarmos vida e nascermos com uma percepção única da vida, com um DNA único e com o desejo de nunca morrer, isso é simplesmente porque a morte é uma estranha aqui. Não a envolva com um otimismo barato, nem a trate como um limite final. Ela é desesperadora, sim, mas apenas se estivermos com o coração no lugar errado.
Com imenso carinho, e desejoso de ter conseguido “calibrar seus pneus”.
P.S.: Durma em paz, tia Júnia ❤
Emanuel Dias, T.
